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A ÚLTIMA CRUZ

Paixão de Cristo sai de cena após décadas de apresentações no Parque do Povo sem lugar para ressuscitar em Marília em 2027. Reforma milionária crucifica viabilidade da continuidade de exibição de maior espetáculo itinerante da região  


Naquele Gólgota: Cruz da Paixão de Cristo foi fincada pela última vez no Parque do Povo em 2026
Naquele Gólgota: Cruz da Paixão de Cristo foi fincada pela última vez no Parque do Povo em 2026

Há mais de duas décadas, uma encosta em permanente erosão em Marília tem emprestado sua aridez vermelha para a passagem de uma história que tem resistido há milênios às corrosões da natureza humana.

Fieis católicos de diferentes gêneros e idades concedem tempo no palco de suas próprias vidas, por meses, para interpretarem a si mesmos por meio dos personagens das últimas horas do Homem de Nazaré.

Mas nem a Paixão de Cristo poderá ressuscitar após a 30ª edição apresentada na noite da última Sexta-Feira Santa (3) na ‘Jerusalém’ fadada a ser riscada do mapa do Parque do Povo, na zona sul de Marília.

Neste texto, o blog explica como, mais uma vez, poderes constituídos por mãos humanas estão próximos de consumar uma profecia de campanha que deverá prevalecer à última cruz fincada no Gólgota da fé – e da arte.


 

NASCIMENTO

A encenação cristã encontrou seu lugar de existência na esteira do Plano Diocesano de Pastoral da Diocese de Marília, à beira do novo milênio, por iniciativa e criatividade de um pequeno grupo de fiéis da Paróquia Santa Rita de Cássia, do Nova Marília. Nos dois primeiros anos, a apresentação foi realizada ao lado da Capela Nossa Senhora das Graças, no Nova Marilia.

O palco inicial foi a carroceria articulada de dois caminhões no antigo Conjunto Desportivo ‘Jair de Freitas’ – conhecido como ‘campo da erosão’, no bairro Costa e Silva. Depois, o chão batido do Poliesportivo Yusaburo Sasazaki, antes de fixar-se no endereço atual.
Fora de cena: Poliesportivo 'Jair de Freitas', onde teatro começou, está abandonado há décadas
Fora de cena: Poliesportivo 'Jair de Freitas', onde teatro começou, está abandonado há décadas

O Parque do Povo, por sua vez, só seria inaugurado pela Prefeitura de Marília em 2019, após uma década de apresentações teatrais. Na ocasião, foi reservado um espaço exclusivo para acomodação do público para as encenações.

Dos equipamentos públicos instalados à época sobraram apenas as duas academias ao ar livre e a pista de caminhada. A iluminação em LED foi furtada, os playgrounds e a quadra de vôlei de areia desapareceram e a portaria foi vandalizada.


Parque do Povo em 2019: infraestrutura entregue no dia da inauguração | Foto: Mauro Abreu
Parque do Povo em 2019: infraestrutura entregue no dia da inauguração | Foto: Mauro Abreu
Parque do Povo em 2026: brinquedos de playground e quadra de areia já não existem mais no local  
Parque do Povo em 2026: brinquedos de playground e quadra de areia já não existem mais no local  
Academia instalada pela administração municipal em 2019 | Foto: Mauro Abreu
Academia instalada pela administração municipal em 2019 | Foto: Mauro Abreu
Academia ao ar livre é o pouco que restou à depredação do patrimônio público no Parque do Povo
Academia ao ar livre é o pouco que restou à depredação do patrimônio público no Parque do Povo

PAIXÃO

A ‘Paixão de Cristo’ tem levado milhares de pessoas às suas apresentações no Parque do Povo. Entre o último ato e a retomada dos ensaios, cerca de nove meses depois, a maior frequência é do abandono.

Por isso, a recorrência do risco a que os integrantes do teatro são submetidos quando retornam ao local. Todos partilham da mesma via-crúcis por entre restos de lixo e cascalhos dejetados pela imundície da falta de consciência ambiental.

Não há um só Cristo, mas dezenas comprometidos com o sofrimento dos ensaios, sob chuva e sol escaldantes, em tardes de domingos e na montagem de todo o espetáculo, em plena Sexta-Feira Santa, até momentos antes da chegada do público.


Via-Crúcis que não termina: atores conviveram com sujeira e abandono em ensaios no Parque do Povo
Via-Crúcis que não termina: atores conviveram com sujeira e abandono em ensaios no Parque do Povo

A sujeira, aliás, só tem sido recolhida pelo poder público municipal, há anos, apenas na semana que antecede a realização da encenação. A limpeza surge, tal como um milagre, multiplicando a aparência da zeladoria pública.

 

MORTE

Desta vez, no entanto, a sujeira – que ressurgirá – deverá ser afastada meses antes da próxima Páscoa para a chegada triunfal, não do Cristo, mas de outra promessa vinda das escrituras da última campanha eleitoral.


Parque de governo: projeto de remodelação inviabiliza continuidade de apresentações teatrais
Parque de governo: projeto de remodelação inviabiliza continuidade de apresentações teatrais

Como se já não existisse, o Parque do Povo será “implantado”, conforme consta na palavra do atual governo municipal, ocupando todos os espaços – inclusive aquele que havia sido reservado exclusivamente para a encenação.

No Parque de Vinicius Camarinha (PSDB), Cristo teria de se arrastar por uma ciclofaixa até chegar à sua crucificação diante de um anfiteatro instalado de costas para sua cruz, enquanto o povo estivesse espremido e espalhado por obstáculos poliesportivos.
De costas para cruz: projeto inclui arquibancada com frente contrária à visão do público para cena principal
De costas para cruz: projeto inclui arquibancada com frente contrária à visão do público para cena principal

Tal como um deus, o prefeito apresentou sua criação sem pedir opinião aos homens – no caso, ao menos aqueles que organizam o teatro. Da forma como foi concebida, a futura obra inviabiliza a continuação da encenação no Parque do Povo.

 

RESSURREIÇÃO

Diante deste cenário – a saber, aquele dirigido pela administração municipal –, a encenação da Paixão de Cristo, que tanto apresentou o Caminho, está em vias de precisar peregrinar pela cidade cujo governo escolheu deixá-la a pé.

O regresso às antigas ‘sedes’ é incerto. O ‘campo da erosão’, na avenida João Ramalho, demandaria investimentos não previstos no orçamento atual do município, e o ‘Yusaburo Sasazaki’ não comportaria a estrutura atual.

A eventual permanência no próprio Parque do Povo também não estaria descartada, caso a administração municipal estivesse disposta a alterar o leiaute dos equipamentos públicos previstos para serem instalados no local.



O edital, aliás, foi republicado nesta terça-feira (7), pelos interesses de César: ajustado à letra da lei para que possa satisfazer a gula do mercado pela obra pública – em nome da suposta boa-fé em um negócio de R$ 10,4 milhões.

A moeda, a ser depositada pelo Estado, por meio de sua agência de fomento, terá que ser devolvida ao augusto cofre bandeirante, mediante a usura devida, paga por aquele que denomina o futuro parque de obras: o povo.

 

PURGATÓRIO

Por ora, a própria prefeitura admitiu, por meio de seus arautos, que “a possibilidade de o evento continuar sendo realizado no local, mesmo após a construção das novas instalações, ainda está em fase de estudo técnico”.

Embora considere “conciliar a modernização do espaço com a preservação das manifestações religiosas e culturais tradicionais da cidade”, o governo de Vinicius admite a “viabilização de outros espaços públicos municipais adequados para o evento”.

Na prática, o prefeito prefere seguir o cânone político, provendo o parque de um circense legado poliesportivo, à própria sorte da existência, a permitir o repartir o pão, ainda que encenado, mas permanente na memória do povo pela fé.


No Auto dos poderes: Vinicius Camarinha, Pe. Thiago Barbosa e dom Luiz Antonio Cipolini | Foto: Prefeitura
No Auto dos poderes: Vinicius Camarinha, Pe. Thiago Barbosa e dom Luiz Antonio Cipolini | Foto: Prefeitura

Vinicius também assistiu à última apresentação. Ao final, ele performou a si mesmo, no palco da bênção final – cujo bispo errou o nome –, e evitou qualquer menção sobre a consumação de seus planos para o lugar.

Como de costume nas relações entre os poderes religiosos e públicos, a encenação recebeu apoio custeado pela bolsa comum da municipalidade: tendas, gradis, banheiros químicos, além dos serviços de limpeza.

Pela primeira vez em décadas – exceto os anos da pandemia – a Paixão de Cristo saiu de cena para não mais voltar por lá. Na quinta (8), uma semana após o ato final, ainda permaneciam resquícios da fixação da última cruz, no alto do Parque do Povo.


Pelo ângulo da cruz: Parque do Povo, em 2026, após última apresentação após décadas
Pelo ângulo da cruz: Parque do Povo, em 2026, após última apresentação após décadas

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