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  • Rodrigo Viudes

PÃO DA MISERICÓRDIA

Atualizado: 18 de Dez de 2019

Capela instala geladeira solidária com marmitas e até microondas para atender moradores de rua da área de central. Nesta 4ª (18) distribui 500 cestas na periferia


'Self service' da solidariedade: iniciativa de capela é destinada especialmente aos moradores de rua de Marília

Pela primeira vez após muito tempo, o soldador Luan Oliveira da Silva, 28 anos e o técnico em Logística, Felipe Souza Baptista, 29 anos, tiveram a oportunidade de repetirem, enfim, um ritual tão comum na rotina caseira e de trabalho de milhões de brasileiros: abriram a geladeira, retiraram a refeição, esquentaram-na no micro-ondas e levaram para comê-la.

Silva e Baptista não têm casa. Nem trabalho. São moradores de rua que só puderam matar a fome de comida e de dignidade de uma só vez pela iniciativa inusitada de um grupo de casais de uma igrejinha vinculada à Catedral São Bento, cujo nome calha bem à providência oferecida aos desvalidos espalhados pelo centro de Marília: Capela Mãe da Divina Misericórdia.

Os dois moradores de rua foram os primeiros usuários da 'Geladeira da Misericórdia', apresentada oficialmente no final da tarde desta segunda-feira (16). O eletrodoméstico foi instalado em um 'box' no muro frontal da capela, localizada na rua Paraíba, 290, no meio do caminho diário daqueles que recorrem ao abrigo oferecido pela 'Casa de Passagem' (antigo Albergue Noturno), mantido pelo município. Ali, também podem jantar, tomar banho e dormir em uma cama.


Santa refeição: Luan da Silva e Felipe Baptista foram os primeiros a se servirem da 'Geladeira da Misericórdia'
"A gente acaba passando longos períodos sem comer. Às vezes, encontra um trabalho. E quando não consegue nada, precisa de apoio. É isso o que mantém a gente vivo para que continuemos em busca da mudança de vida", afirmou Baptista, que diz ter formação como padeiro e confeiteiro pelo Senai e de Logística pelo Centro Paula Souza. Natural de Praia Grande (SP), contou estar há um ano e meio nas ruas "por abuso do uso de drogas". "Não arrumei nada em Marília e terei que ir embora".

'VOTO DE CONFIANÇA'

A 'Geladeira da Misericórdia' está exposta ao acesso de qualquer pessoa que queira fazer uso de sua finalidade, ou não. Nos próximos dias deve ser instalada uma porta de vidro, apenas para proteger melhor os talheres de plásticos e as frutas - ontem, havia um pote de mangas fresquinhas ali - da ação do vento e da chuva. E, claro, sem cadeado, nem tranca alguma.

"Já me perguntaram sobre isso (o acesso livre). Podem até quebrar. Se acontecer, a gente conserta. Se pegarem alguma coisa, a gente põe de novo. Escolhemos fazer um voto de confiança no ser humano. É o tipo de decisão que precisa começar pela gente. Precisamos olhar para o próximo de uma forma diferente", afirmou o coordenador do grupo de casais da capela, Carlos Antico.

A despeito da 'confiança cristã' declarada, a comunidade zelou para que sua boa obra fosse assistida o tempo todo do alto - com 'a' minúsculo mesmo. Uma câmera foi instalada para registrar toda movimentação abaixo dos céus naquele pedacinho de chão, de modo a contemplar o benefício de muitos e a eventual criminalidade de alguns.


Alguém vê tudo lá do alto: comunidade instalou câmera para acompanhar toda movimentação por 24 horas

INICIATIVA COLETIVA

A 'Geladeira da Misericórdia' teve como inspiração iniciativa semelhante pelos 'braços' do mesmo grupo de casais em Primavera do Leste (MT). Por aqui, pesou ainda uma análise de comportamento do público-alvo, os moradores de rua. "Notamos, junto aos órgãos de atendimento social, que eles não querem ser acolhidos. Muitos preferem permanecer do jeito que está", falou Antico.

Diante deste cenário, o grupo amadureceu a ideia da 'geladeira'. "Conseguimos tudo em doação por nossos próprios membros. Foi maravilhoso!", afirmou o coordenador. "O que passou pelo nosso coração: com R$ 1, todo mundo 'faz o almoço'. O problema é à noite. Nós temos o pão de cada dia e até mistura Deus também nos dá. O que não dá é ver um irmão passar fome debaixo de nossas barbas".

A doação de alimentos para a 'Geladeira da Misericórdia' está aberta a toda a comunidade. Basta abri-la e botá-los na prateleira, embalados e com data de preparação. Até que esse gesto venha se tornar um rotina por mais voluntários, os casais da capela vão repor as marmitas diariamente, em ritmo de revezamento de trabalho. A cada noite, pelo menos 30 estarão disponíveis para quem tiver fome.


SOLIDARIEDADE ÀS CENTENAS

Quem já achava que aquela capelinha já havia surpreendido pela novidade apresentada à beira da rua, não imagina o tamanho da solidariedade que ainda estava guardada do lado de dentro. Os trabalhos seguiam, a todo vapor, nesta segunda-feira (16) para a finalização de mais de 500 cestas básicas natalinas a serem distribuídas a partir já desta quarta-feira (18).


Templo de comunhão: capelinha ficou abarrotada de doações para preparação de 500 cestas natalinas
As acanhadas instalações da capela, com capacidade máxima para 80 pessoas sentadas, quase não deu conta de acomodar tantos fardos de alimentos e de itens de higiene pessoal que ocuparam todo o espaço dos bancos. Foram poupados apenas o altar e o pequeno presépio. "Tudo foi recebido em doação por empresas e pessoas que sabem de nosso trabalho sério", afirmou o coordenador.

Cada cesta será completada ainda com um panetone, um brinquedo e um frango assado. A entrega, nesta quarta (18), terá a participação da maioria dos 130 casais que compõem o grupo da Mãe da Divina Misericórdia. Serão beneficiadas famílias carentes da periferia, indicadas por assistentes sociais. "Vamos proporcionar pelo menos uma noite diferenciada", acredita Antico. Além do Natal, a capela assiste atualmente 25 famílias ao longo de todo ano.


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