POLÍTICA DE EXPECTATIVA
- Rodrigo Viudes
- 12 de jun.
- 4 min de leitura
Passagem de Alckmin por Marília repete método de palco para atos burocráticos de governo em ano eleitoral. Futura Policlínica será vizinha à instituição de ensino extinta por ex-governador. Visita histórica da presidência da República à cidade ocorreu apenas uma vez – e não foi nesta quinta-feira

A quinta-feira de abertura da Copa do Mundo no México foi dia de expediente normal na agenda oficial do vice-presidente da República, Geraldo Alckmin (PSB), com início e término no Planalto central do Brasil.
À tarde, o primeiro homem na ordem sucessória da chefia do país embarcou em um jato da Força Aérea Brasileira (FAB) para despachos em Marília, a quase 900 quilômetros de seu gabinete em Brasília.

Por aqui, Alckmin prosseguiu suas audiências com prefeitos da região para tratar sobre futuras intervenções na rodovia federal Transbrasiliana (BR-153) e participou de ato simbólico de autorização da construção da Policlínica do Jardim Marília.
Em ambos os casos, a presença do vice-presidente da República restou predominantemente simbólica em contexto pré-eleitoral, alinhada à política de expectativa, cujos aspectos trataremos neste texto.
BR-153 DO FUTURO
Após sua chegada no aeroporto, Alckmin seguiu direto para o auditório do Ciesp, onde se encontrou com prefeitos para uma reunião fechada. Na tela, a ‘reunião de trabalho’ teve por tema a ‘duplicação da BR-153’.

Ele falou sobre um novo projeto de concessão da rodovia, com previsão de ampliação das faixas e da inclusão do contorno em Marília, com direito a Wi-Fi – já oferecido atualmente – e ainda parada para caminhoneiros.
Alckmin ponderou, no entanto, que o projeto precisaria da aprovação do Tribunal de Contas da União (TCU) antes da produção de um eventual novo edital de ‘relicitação’ para leilão previsto, segundo ele, “ainda no segundo semestre”.
CALENDÁRIO ELEITORAL
A cronologia do vice-presidente obedece a um raciocínio pré-eleitoral. A antecipação do anúncio de uma obra ainda sem aprovação jurídica na União visa antecipar futuras propostas de Lula, pré-candidato à reeleição. A estratégia não é por acaso.
A presença de Alckmin em Marília visou ampliar a presença política do governo federal em cidade com forte histórico de resistência eleitoral a candidatos de esquerda. Lula venceu nas urnas locais apenas em 2002.
Por isso, a intensificação das agendas públicas do governo federal, infladas com anúncios de obras futuras e repasses milionários a servidores públicos, como o que ocorreu nesta quinta-feira em Marília, com Alckmin.
(PARÊNTESES PARA REPAROS)
No ato político realizado ao lado da área em que deve ser construída a Policlínica, Alckmin foi apresentado pelo prefeito de Marília, Vinicius Camarinha (PSDB), como a “primeira vez que a cidade recebe a presidência da República”.
Há dois reparos a serem feitos nesta afirmação. O primeiro é um erro histórico. Marília recebeu a visita do presidente da República, uma única vez, em 4 de abril de 1963. Foi João Goulart, e nenhum outro.

Alckmin, por sua vez, esteve em Marília como vice-presidente, e não no exercício da presidência, o que poderia configurar a presença do chefe de Estado na cidade. Lula não esteve ausente do cargo ou do país nesta quinta-feira (11).
POLICLINICA
Na condição dele mesmo, Alckmin subiu em um palco raso apinhado de autoridades locais para assinar um documento simbólico. Valerá somente a ordem de serviço a ser publicada nos diários oficiais.

A futura Policlínica, contratada pelo governo federal por R$ 33 milhões – R$ 20 milhões para construção e R$ 13 milhões para aquisições de equipamentos – atenderá em diversas especialidades. O prazo para conclusão é até dezembro de 2027.
Encerrado o ato político desta quinta-feira, o blog retornou à rua dos Crisântemos, no Jardim Marília. Havia apenas a placa e o terreno recém-terraplanado sem nenhuma das máquinas levadas para ilustração da obra.
Quase em frente está o Centro Dia Anos Dourados, espaço para convivência de idosos mantido com recursos federais. Acima, o Cefam, extinto em 2003 pelo então governador, Geraldo Alckmin. O prédio está abandonado há décadas.
As obras da Policlínica ainda nem começaram, mas a valorização imobiliária, sim. Ao lado do terreno cru do futuro equipamento público uma área com 4 mil metros quadrados empilha placas de venda.

MÉTODO POLÍTICO
A prática da política da expectativa anda recorrente em Marília. O gestor anuncia, faz ato público – de processo burocrático –, produz fatos e imagens, divulga para imprensa e nas redes sociais, gera expectativa, mas só executa depois.
O método foi utilizado, por exemplo, no processo de instalação do Ambulatório Médico de Especialidades (AME). Da doação do terreno ao Estado, em fevereiro de 2025, ao início das obras, em abril de 2026, foram 14 meses de discursos, atos e solenidades políticas.
Ainda em fevereiro de 2025, o secretário de Estado da Saúde, Eleuses Paiva, também em visita a Marília, chegou a falar no início da construção do AME apenas dois meses depois, ainda que a obra nem tivesse sido sequer licitada [assista abaixo]
Em outubro, foi a vez do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) trazer seu gabinete a Marília. Por aqui, publicizou uma burocracia: assinou a autorização para a obra – exatamente o que fez Alckmin nesta quinta-feira.
A licitação da obra ocorreria apenas em dezembro de 2025 e a efetiva contratação em março deste ano. A entrega está prevista para o primeiro semestre de 2028, à beira da futura pré-campanha de Vinicius à sua reeleição municipal.



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