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  • Rodrigo Viudes

QUE DIABOS, JOÃO?

Atualizado: 17 de Dez de 2018

A triste rotina de criminosos travestidos de religiosos que transformam a vida de pessoas e comunidades em um verdadeiro inferno



E agora, 'John'?: médium é um expoente exemplo de como é possível explorar e abusar sob a proteção de sua 'divindade'


São Paulo, 11 de setembro de 2011: o Ministério Público de São Paulo pede a prisão do autoproclamado profeta, fundador e líder da Igreja Apostólica Santa Vó Rosa, o irmão Aldo Bertoni, sob a acusação de estupro e atentado violento ao pudor. Ele morreu em 2014, sem julgamento, aos 90 anos.

Cidade do Vaticano, 30 de julho de 2018: o papa Francisco aceita o pedido de renúncia do arcebispo de Adelaide, Austrália, Philip Edward Wilson, 68 anos, que havia sido condenado a 12 meses de prisão por ter acobertado casos de abusos sexuais na Igreja Católica. Wilson é o mais alto prelado punido por crimes ligados à pedofilia na atualidade.

Rio de Janeiro, 22 de agosto de 2018: o presidente, o vice e um médium do Centro Espiritualista Semeadores da Luz são denunciados pelo Ministério Público (MP) por abusarem sexualmente de suas fiéis - entre elas, uma adolescente de 15 anos, por estar "possuída pelo Exu Caveira". O caso está em investigação.

Abadiânia, Goiás, 14 de dezembro de 2018: a Justiça de Goiás determina a prisão preventiva do médium João Teixeira de Faria, o João de Deus, 76 anos, sob acusação de abuso sexual de mulheres durante 'tratamentos espirituais'. Ele se entregou na tarde de domingo (16), na encruzilhada de uma estrada rural de Abadiânia (GO).


RELIGIÕES DIFERENTES, CRIMES IGUAIS

O que o irmão Aldo Bertoni, o ex-arcebispo de Adelaide, os líderes do 'Semeadores da Luz', João de Deus, e tantos outros padres, pastores, médiuns, entre outros do gênero - inclusive os ainda não desmascarados - têm em comum em meio a esta triste rotina porno-religiosa de nossos templos?

A principal é a autoridade. Espiritual, mas também todas as demais decorrentes de seus cargos, seja nas instituições e/ou denominações que presidem, e mesmo em outras organizações nas quais alcança com sua influência: empresas, entidades civis, governos, imprensa... Uns menos, outros além do moral, do legal.

A 'espiritualidade' destes 'religiosos' é outra característica dominante para o tipo de crimes contra a dignidade sexual que praticam - sem entrar no mérito de outros, como extorsão, ameaça. Sob a áurea de suas 'intervenções divinas', licenciam-se no direito de assediar, abusar, estuprar.

E quem é vitimado por este tipo de gente, que se diz representar o bem, além de ter que conviver por anos, décadas, com profundas sequelas físicas, psicológicas, emocionais, ainda encontra todo tipo de resistência, principalmente em sua própria igreja, por exemplo, para denunciar seus abusadores.

É aqui que entra outro aspecto comum a esses criminosos travestidos de benfeitores: a 'divindade adquirida' - a começar pelo nome. Nada que venha do céu, claro, mas assumido, sem constrangimentos, pelo bem dos bens que se acumulam - dinheiro, poder, fama - amealhado de um séquito de idólatras.


JUSTIÇA COMUM

Esse sistema, aparelhado para proteger bandidos da fé, é um dos principais entraves para vítimas que buscam justiça. A blindagem é tanta que dificilmente prosperam denúncias apresentadas para instâncias superiores de uma instituição religiosa - quando não a própria liderança é a abusadora.

O único caminho que resta para denunciar qualquer maníaco religioso é a Justiça Comum. O caso João de Deus está aí como exemplo notório: até hoje (15), mais de 350 mulheres de pelo menos seis estados e seis países já haviam prestado depoimentos contra o médium ao Ministério Público.

Além da promotoria, o cidadão, fiel ou não a qualquer denominação religiosa, dispõe de uma linha direta para denunciar. É o 'Disque 100', criado para colher denúncias contra os direitos humanos. O número tem sido uma ferramenta importante no combate à violência sexual praticada contra crianças e adolescentes.

Infelizmente, ainda há muitos 'Aldos', 'Philips' e 'Joões' que continuam a delinquir, extorquir, assediar e seja lá mais o que façam, protegidos pela investidura de seus cargos, enquanto perdurar o silêncio de suas vítimas. Impunes, ministram cultos, consagram a Eucaristia, dão o passe. Que diabos de religião é essa?








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