URNAS À DIREITA
Histórico do eleitorado mariliense indica preferência por manutenção de ‘coroa paulista’ e alternância na República nas eleições de outubro. Cidade escolheu presidente com menos de um ano de instalação, em votação exclusivamente masculina. Marília elegeu candidato de esquerda à chefia do Executivo apenas uma vez em quase um século

Celebrado na segunda-feira com desfiles cívico-militares em todas as capitais do país e nas principais cidades paulistas – menos Marília –, o Sete de Setembro subtraiu o primeiro de 30 dias na contagem regressiva até o primeiro turno das eleições de outubro.
Na terra emancipada pelo ‘grito’ de Bento de Abreu Sampaio Vidal, o destino nas urnas parece estar selado à beira do curso da história de seu eleitorado, tão previsível quanto a Proclamação aos Portugueses, emitida por Dom Pedro I em 21 de outubro de 1822.
A preferência está no lastro eleitoral do mariliense, acostumado a manter-se sob o julgo das coroas paulistas, com raro episódio de ‘voto de independência’ na República, conforme o blog explicará neste post, sem pintura.

SÚDITOS ELEITORES
Marília é acostumada a escolher pela permanência daqueles que já exercem poder sobre suas terras. É assim desde a primeira vez que a cidade foi às urnas, com menos de um ano de sua data oficial de fundação, em 4 de abril de 1929.
Em 1º de março do ano seguinte, os pioneiros – apenas homens, mulheres só votariam a partir de 1933 – elevaram o então presidente do estado de São Paulo, Júlio Prestes, ao cargo nacional, na décima eleição à chefia do Executivo do Brasil.
O resultado das primeiras urnas de Marília foi conhecido já na edição do dia seguinte nos jornais da cidade. O candidato do Partido Republicano Paulista (PRP) ganhou de lavada do único concorrente, Getúlio Vargas (Aliança Liberal).

Com 674 votos favoráveis, Marília endossou a manutenção da Política ‘Café com Leite’, preferindo o representante de sua principal economia local, ainda que 70 eleitores tenham indicado a alternativa gaúcha.
Em seu editorial, o jornal ‘O Alto Cafezal’ expôs seu posicionamento ante aquelas eleições. Qualquer semelhança ao pensamento majoritariamente vigente nos dias de hoje não é mera coincidência.
“A ninguém é dado negar (a não ser os apaixonados) as qualidades de administrador reveladas pelo candidato da concentração conservadora e a sala actuação como político e como patriota”, afirmou o periódico.
De fato, Júlio Prestes ganharia com 1.091.709 votos, mas se tornaria o único presidente do país a não assumir, apesar da preferência das urnas. Embora derrotado com 742.794 votos, Getúlio assumiria o poder após um golpe de Estado.

CASACA CONSERVADORA
Passadas duas décadas, o eleitorado mariliense se renderia à propaganda messiânica e populista do agora ex-presidente e então senador, Getúlio Vargas, para ajudá-lo a ser reconduzido à Presidência do Brasil.
Ainda que ocupasse as fileiras de um partido de centro-esquerda, o Partido Trabalhista Brasileiro, Getúlio levou 6.887 dos 10.944 votos (62,23%) de Marília para a presidência da República. Esse PTB, fundado pelo próprio candidato, seria extinto em 1965.
Ou seja, o eleitorado preferiu reconduzir um ditador ao principal cargo público do país a escolher o brigadeiro Eduardo Gomes, da União Democrática Nacional (UDN), principal nome da direita na disputa.

A título de curiosidade, o brigadeiro, que virou nome de doce de chocolate, denominaria uma das principais avenidas da zona leste de Marília após aprovação de lei municipal enquanto ainda era vivo – algo que se tornaria proibido a partir de 1977. Eduardo Gomes morreu em 1981, aos 84 anos.
PRIMEIRO PREFEITO ELEITO
Após votar para presidente em 1930, 1945 e 1950, o eleitorado mariliense escolheria, apenas em 1955, o primeiro prefeito eleito pelo voto. Até então, todos os 17 anteriores haviam sido nomeados pelos governadores.
O vencedor foi o engenheiro civil, Miguel Argolo Ferrão (UDN), com 5712 votos, à frente do ex-vereador Otavio Simonaio, com 4.177. O vice eleito em votação à parte, Octávio Barreto Prado, ganharia a eleição seguinte para prefeito de Marília.

Filiado ao Partido Social Progressista (PSP), de centro-direita, Octávio se fez vice, em 1955, na esteira da expressiva votação ao ex-governador de São Paulo, Adhemar de Barros, em Marília: 4.486, mais que o dobro dos 1.814 para Juscelino Kubitschek, eleito presidente da República.
Em 1960, o eleitorado mariliense se rendeu outra vez nas urnas a mais uma figura populista que, a exemplo de outros, antes e depois, utilizou-se do discurso de “combate à corrução” simbolizada por uma vassoura.
Primeiro eleito a tomar posse na recém inaugurada Brasília, Jânio Quadros, do Partido Democrata Cristão (PDC), foi o mais votado em Marília – 8.632 votos. A cidade endossou o vice da chapa, Milton Campos (UDN), mas o país escolheu João Goulart (PTB).
‘ONDA’ TUCANA
A cantilena eleitoral voltaria a acalentar os ouvidos do eleitorado mariliense 29 anos depois na retomada das eleições diretas para a presidência da República, em 1989, quatro anos após o fim da Ditadura Militar (1964-1985).
O autoproclamado ‘caçador de Marajás’ do Partido da Reconstrução Nacional (PRN) recebeu com 26.034 votos no 1º turno. Luiz Inacio Lula da Silva (PT), que seria o adversário do 2º turno, foi o quarto mais votado em Marília, atrás de Paulo Maluf (PDS) e Mário Covas (PSDB).
De volta às urnas em 17 de dezembro de 1989, a cidade confirmou sua preferência por Collor, com 51.313 votos. Lula receberia 27.048. O presidente eleito sofreria impeachment em 1992, acusado de envolvimento no Caso PC Farias – da corrupção que prometeu combater.

Ainda nos anos 1990, o eleitor mariliense aderiu à ‘onda tucana’, elegendo duas vezes o sociólogo Fernando Henrique Cardoso (PSDB) à presidência do país. Também reeleito, o governador Mario Covas (PSDB) venceu por aqui em 1994, mas ficou atrás de Paulo Maluf (PPB), em 1998.
Os tucanos permaneceriam no Palácio dos Bandeirantes como apoio da votação majoritária de Marília por mais de duas décadas. A cidade preferiu Geraldo Alckmin em 2002, 2010 e 2014, além de José Serra, em 2006 e João Dória, em 2018.
RARA CURVA À ESQUERDA
Apesar da preferência pelos candidatos do PSDB para o governo paulista, o eleitorado mariliense convergiu à esquerda, em 2002, na rabeira da campanha ‘paz e amor’ que elegeu Lula à presidência pela primeira vez.
De forma inédita, o eleitorado escolheu o ex-metalúrgico com ampla diferença de votos diante de seu concorrente, José Serra. Foi a única vez que a cidade preferiu um candidato de esquerda para a chefia do Executivo.

Ainda que o PT se mantivesse na Presidência da República nas três eleições seguintes, o eleitorado mariliense preferiu os tucanos Geraldo Alckmin, em 2006; José Serra, em 2010 e Aécio Neves, em 2014.
Em 2018, Jair Bolsonaro (PSL) seria eleito presidente com 80% dos votos do eleitorado mariliense ante outros 20% ao candidato do PT, Fernando Haddad. Para governador, João Doria (PSDB) venceu também por aqui, com 58,42% dos votos.
Derrotado em sua tentativa de reeleição, Bolsonaro venceu em Marília, em 2022. Recebeu 93.172 votos, enquanto Lula, o vencedor, obteve 41.031. O carioca Tarcísio de Freitas (Republicanos) foi conduzido à sede do governo paulista com 88.084 votos de Marília ante os 38.503 para Fernando Haddad (PT).




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