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  • Rodrigo Viudes

APERTO NA BATINA

Purgatório financeiro provocado pela Covid-19 estica redução de terço salarial de padres e religiosos pelo 3º mês. Iniciativa partiu de presbitério da região mais pobre da Diocese de Marília. Cúria não informa sobre o impacto da pandemia em suas contas


Tempos de terços: além de rezar nesta pandemia por dias melhores, padres devolvem parte de seus ganhos

Pouco mais de dois meses após o decreto episcopal que suspendeu a realização de cerimônias e demais atividades públicas por causa da pandemia do novo coronavírus, paróquias, capelas e demais espaços católicos vinculados à Diocese de Marília têm testemunhado um verdadeiro milagre da multiplicação de receitas às avessas.

Sem missas e casamentos, os recebimentos de dízimos, ofertas e taxas diversas minguaram, ainda que diversas comunidades tenham se esforçado em manter algum fluxo na entrada do caixa por meio de doações online de fieis.

Diante deste purgatório financeiro, padres e religiosos recorreram ao terço. No caso, o de suas côngruas canônicas (salários) mesmo: dos três salários mínimos a que têm direito de receber de suas comunidades, abriram mão de uma parte.


INICIATIVA PRESBITERIAL

Na prática, os representantes do clero – a saber, padres e religiosos – passaram a viver com pouco mais de R$ 2 mil por mês. O corte começou em abril, repetiu-se neste mês e foi mantido para junho, segundo decreto publicado pelo bispo diocesano de Marília, dom Luiz Antonio Cipolini.

Apesar da assinatura episcopal, a iniciativa partiu do presbitério. Em particular, dos sacerdotes que atuam na área mais carente da diocese e do estado, no extremo oeste paulista – entre as cidades de Flórida Paulista (SP) e Panorama (SP), a ‘região três’ da jurisdição diocesana.

“Penso que a pandemia tem nos ajudado a repensar um pouco nossa relação com os bens materiais, tanto do ponto de vista pessoal como institucional. Neste momento temos que nos ajudar e sermos solidários uns com os outros”, afirmou ao blog o vigário diocesano daquela região – e pároco de duas paróquias – padre Ademilson Luiz Ferreira. "A prioridade é manter os funcionários e seus salários, bem como cumprir com todas as nossas obrigações", assegurou.

O padre agradeceu o apoio dos fiéis que têm assistido na manutenção das paróquias, mesmo durante a pandemia. "Mesmo com uma diminuição (das receitas), nosso povo continua colaborando e dando sinais bonitos de generosidade, preocupando-se com a Igreja e sua evangelização que continua, dentro dos limites necessários", afirmou


Vigário episcopal Ademilson Ferreira: "Temos que nos ajudar e sermos solidários uns com os outros"

Além das reduções salariais, ainda sob as solicitações do clero, o bispo manteve a suspensão dos pagamentos de parcelas de empréstimos, taxas e do Fundo Assistencial Paroquial (FAP) devidos pelas comunidades à Cúria, também para junho. Confira abaixo a íntegra do decreto publicado na última sexta-feira (22):




SEM PRESTAÇÃO DE CONTAS

A manutenção desta renúncia de receita por mais um mês impacta diretamente no fluxo do caixa diocesano. A propósito desta provável queda de arrecadação e da divulgação do decreto da última sexta-feira (22), o blog encaminhou à Cúria os seguintes questionamentos:

  • Em quanto as "anistias" concedidas pelo decreto reduzirão na arrecadação da Cúria?

  • A que fundos - senão ao próprio caixa - a Cúria poderia recorrer para atender, sejam as paróquias que estejam em situação financeira mais comprometidas por conta da epidemia ou instituições atendidas pela Igreja?

  • Quanto recebe o bispo? Ele também vai reduzir o próprio salário?

O blog decidiu publicar as perguntas após a resposta recebida da Cúria, ainda na sexta-feira (22):

“Todo o esforço da Cúria e do clero de Marília é para que os padres e as paróquias estejam próximos ao povo diante desta difícil pandemia, sendo presença de fé e sinal do pastoreio de Cristo sobretudo aos mais necessitados. Deste modo, por se tratar de questões de demanda interna do serviço curial, o Decreto as responde por si só”.

Não, o decreto e, muito menos a Cúria, respondeu. Não divulgou o quanto a pandemia atingiu em suas contas, não apontou a quem ou a que fundo as paróquias podem buscar apoio financeiro e nem confirmou o compromisso pessoal, exemplar e público do próprio bispo em contribuir do bolso – quanto menos o valor de seu salário.


Dom Luiz Antonio Cipolini: Cúria não confirmou se bispo diocesano também vai retirar um terço de seu salário

DÍZIMO PÚBLICO, BALANCETE PRIVADO

A indisposição da diocese em responder objetivamente as perguntas feitas pelo blog reflete a dificuldade da igreja em prestar contas, seja pela imprensa e, em particular, à comunidade que a mantém – sobretudo, financeiramente.

De fato, a Cúria só dá satisfações onde é obrigada por lei: à Receita Federal e ao Ministério da Fazenda (civil) e ao papa, a cada cinco anos (Código de Direito Canônico - CDC), durante visita obrigatória do bispo a Roma. Aos padres, por exemplo, a diocese costuma apresentar um sucinto balanço anual.

Enquanto a Cúria reserva-se no direito de não divulgar suas finanças, as paróquias são obrigadas a prestá-las formalmente, seja para cumprir as leis civis ou canônicas. Os balancetes mensais devem ficar à disposição da comunidade, em ato público de prestação de contas, e os anuais enviados à Mitra.

Apenas 17,7% (11 de 62) paróquias da Diocese de Marília haviam entregue a contabilidade de 2019 até a primeira quinzena deste ano segundo informou o ecônomo diocesano, Jair José Chaves, em aviso enviado aos padres, diáconos e religiosos. O blog também recebeu uma cópia.

Veja:

Além das paróquias, o Centro Diocesano de Pastoral (CDP) também constava entre os pendentes de envio de documentação referente aos meses de outubro e dezembro. Não foi informado o número de paróquias que conseguiram entregar suas documentações contábeis dentro do prazo divulgado no aviso - 20 de janeiro. O descumprimento desta obrigação com a Receita Federal implica em multas para a Mitra Diocesana de Marília.



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