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IGREJAS DE PASSAGEM

Da calçada aos templos, moradores de rua, fiéis visitantes e nômades de crenças revelam os desabrigos da fé no crescente condomínio religioso de Marília — onde até Deus parece inquilino. Confira análise da Campanha da Fraternidade



É manhã de sábado e um homem está deitado à porta da igreja. Enrolado em um cobertor, ele encosta a cabeça à beira da soleira com os pés à mostra para quem já passa apressado em frente àquela casa de Deus católica.

A imagem, clicada pelo blog em uma paróquia da zona norte de Marília, remete diretamente ao cartaz da Campanha da Fraternidade (CF) 2026, cujo tema é a moradia e o lema, “Ele veio morar entre nós” (Evangelho de João, capítulo 1, versículo 14).

Neste post, o blog analisa a iniciativa católica à luz das realidades das pessoas em situação de rua, da religiosidade e do desabrigo na fé por meio de estatísticas oficiais e de práticas religiosas observadas em igrejas na cidade.


 

DESABRIGADOS

O homem da foto principal desta postagem é uma das 296 pessoas que permaneciam em situação de rua em Marília até fevereiro, segundo dados do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome.

Espalhados principalmente pela região central da cidade, os residentes nos caminhos de Marília ocupam marquises e fachadas como abrigo, à vista da cidade, faça chuva ou sol, calor ou frio, no relento da mendicância.

Apenas 45 conseguem ter teto seguro por dia. É a capacidade máxima para pernoite na Casa de Passagem da Secretaria de Assistência Social e Cidadania de Marília. Além da cama, são ofertados banho, roupas limpas e comida.


Moradia a céu aberto: pessoas em situação de rua eram quase 300 em Marília em fevereiro | Foto: blog
Moradia a céu aberto: pessoas em situação de rua eram quase 300 em Marília em fevereiro | Foto: blog

Ainda que o serviço não suporte a demanda, nem todos fazem questão da cobertura social da cidade. Preferem a liberdade das ruas, com todos os descaminhos que essa escolha implica para a saúde, à segurança e à vida.

 

VARANDAS ECLESIAIS

Além do apoio do Estado – inclusive com recebimento mensal de R$ 600, pelo Programa Bolsa Família, benefício ao qual 190 tinham direito em fevereiro –, pessoas em situação de rua ainda são cobertos por ações sociais promovidas por igrejas e centros espíritas.

Na Igreja Católica, as pastorais de rua – inclusive da paróquia cuja porta foi retratada na imagem de abertura desta postagem – saem do conforto da teoria doutrinal para a prática da solidariedade, por meio da doação de tempo e alimentos.

Na zona sul, missionários mantêm a Casa Mateus 25 – inspirada nos versículos 35 e 36, em que se lê “porque tive fome, e destes-me de comer; tive sede, e destes-me de beber; era peregrino, e recolhestes-me; nu, e me vestistes; enfermo, e me visitastes; estava na prisão, e fostes visitar-me”.



Os que ali escolhem passar – apenas homens adultos, por até nove meses – encontram abrigo para o corpo e para a espiritualidade, sejam católicos ou não. A triagem é feita no Bom Samaritano, em frente à Catedral São Bento, no centro de Marília.

 

TEMPLO DE VISITAS

No entorno da igreja-sede da Diocese de Marília, pessoas em situação de rua estão por toda parte. Perambulam dia e noite, inclusive por dentro da catedral, atravessando as celebrações, de uma porta a outra.

Elas não são as únicas transeuntes das missas, batismos, casamentos. Pelo fluxo das celebrações, pessoas em situação de religiosidade também vagueiam pelos corredores como visitantes de uma casa de ritos.

O fluxo tem diminuído. Segundo Censo 2022, 53,3% da população de Marília se declarava católica ante 73,1% do mesmo levantamento em 2000. Ou seja, quase três a cada 10 católicos residentes na cidade desapareceram da estatística oficial.


Catedral de passagem: pessoas em situação de rua, visita e fé perambulam pelo mesmo espaço religioso
Catedral de passagem: pessoas em situação de rua, visita e fé perambulam pelo mesmo espaço religioso

Em 2007, em seu jubileu de prata episcopal, o então bispo de Marília, dom Osvaldo Giuntini (1936-2025), já previa a “acomodação do rebanho” católico na cidade. “Fiéis mesmo, só uns 20% do que diz o IBGE”, afirmou.

 

NÔMADES DE FÉ

A dispersão de católicos da casa da ‘madre Igreja’ tem sido acomodada – ao menos, em parte – em outras habitações semelhantes de profissões de fé, conforme se observa nas estatísticas oficiais mais recentes.



Entre os Censos de 2000 e 2022, o contingente oficial de evangélicos praticamente dobrou em Marília: de 16,7% para 31,3%, residentes em um condomínio de mais de 100 denominações – consideradas apenas as igrejas-sede.

Neste movimento, há quem tenha se estabelecido em novo endereço de culto e ainda aqueles que circulam entre denominações cristãs ou outras tradições religiosas. São os chamados nômades da fé.

Outros, porém, já não se contam entre esses migrantes. São os que se declaram sem religião, que atingiram patamar histórico no Censo 2022: 13.582 declararam não ter morada em nenhuma religião em Marília.

 

DEUS INQUILINO

O aumento deste índice de pessoas em situação de dúvida tem suscitado maior preocupação nas lideranças religiosas – em particular, nas cristãs – que os dados referentes à redução ou migração dos ‘moradores de igrejas’.



O raciocínio é semelhante ao daquele dono de imóvel que perde o locatário para um bairro que se abre na cidade: é gente que se vai para a própria casa e receita que deixa de cair no cofre no mês seguinte.

Por isso, o esforço permanente de igrejas pelo lançamento de novos empreendimentos espirituais que entretenham fiéis que buscam por experiências sensoriais, respostas rápidas para dilemas da vida ou até pertencimento imediato.
Desprezo ao divino: Deus parece ser inquilino em igrejas onde o homem ocupa seu lugar | Foto: IA
Desprezo ao divino: Deus parece ser inquilino em igrejas onde o homem ocupa seu lugar | Foto: IA

Nesta empreitada religiosa, Aquele que dizem ser o ‘dono da casa’ é arrolado como avalista das propostas entregues aos fiéis mutuários, cabendo ao divino o ônus do pagamento das promessas prometidas por terceiros. Um Deus inquilino.

 

CORAÇÕES ALUGADOS

Enquanto a Campanha da Fraternidade procura desalojar consciências do sedentarismo ritualístico para o exercício da reflexão sobre a promoção da moradia digna como direito fundamental, persiste a casa incomum.

É aquela que a cidade exclui, que a igreja não integra, onde o fiel não permanece, em que o pobre não entra e na qual a comunidade não partilha. A CF-2026 não fala de paredes, mas de vínculos; não de teto, mas de mesa; e mais de comunhão que de moradia.

Ao retratar um homem deitado sobre um banco de praça, a Campanha da Fraternidade não denuncia apenas as paredes que faltam aos que vivem na rua, mas também as portas que permanecem fechadas no coração dos homens.



A casa somente deixará de ser incomum quando ninguém estiver fora dela — nem da cidade, nem da mesa, nem da comunhão. Há muitas moradas para se viver — até que o Evangelho deixe de ser apenas um classificado imobiliário para o céu.



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