FÉ NA SAÚDE MENTAL
- Rodrigo Viudes
- há 10 horas
- 3 min de leitura
Saída precoce de padre da Sagrada Família expõe a crença na autossuficiência espiritual diante dos limites humanos do sacerdócio na Diocese de Marília. Circular episcopal antecipa primeiras transferências de 2026

Última paróquia a conhecer seu novo padre pelas transferências anuais do clero em 2025, definida apenas 48 horas antes da virada, a paróquia Sagrada Família sofreu nova troca no comando de sua sacristia.
Menos de um mês após ser apresentado à comunidade, o padre Sérgio Luiz Roncon deixou, a pedido, o cargo de administrador paroquial da comunidade da zona norte de Marília, conforme apurou o blog.
Sem citá-lo, o bispo diocesano, dom Luiz Antonio Cipolini, anunciou o substituto na primeira circular de 2026, publicada nesta quinta-feira (12): o padre Danilo Nobre dos Santos, que assumirá como pároco.

Em seu sexto ano como administrador da Paróquia de Sant’Ana, em Herculândia (SP), Danilo antecipou a transferência que, por orientação diocesana, seria submetida a circular anual que virá no próximo semestre.

As trocas foram definidas em reunião extraordinária do Conselho de Presbíteros, realizada na última sexta-feira (6). Na outra mudança, o atual vigário da Paróquia São Francisco Xavier, de Bastos (SP), Diego Luiz Carvalho de Souza, assumirá o altar de Sant’Ana.
SAÚDE MENTAL X SACERDÓCIO
A saída precoce de Sérgio Luiz Roncon da Sagrada Família de Marília não surpreendeu quem conviveu com o padre nos últimos meses. Em Junqueirópolis (SP), ele já não celebrava as missas sozinho na Paróquia Santo Antonio.
O sacerdote havia solicitado um 'tempo de repouso', iniciado em janeiro de 2023, para cuidar do pai, cujo falecimento, em junho de 2025, o afetou profundamente, segundo fontes ouvidas pelo blog.
Ainda assim, em razão de uma transferência oculta, que abriu uma lacuna de última hora após remanejamento do clero, padre Sérgio acabou sendo escolhido para assumir a pequena paróquia da zona norte de Marília.

Apesar da tentativa de retomada da rotina sacerdotal – a se completar 33 anos no próximo dia 27 – o padre decidiu se afastar novamente, até que volte a ter condições psicológicas para exercer seu ministério.
Em Marília, padre Sérgio não foi deixado só. Recebeu por companhia um zeloso colega, Geraldo Lélis de Andrade, ex-cuidador de dom Osvaldo Giuntini (1936-2025), e também moradia na recém-inaugurada Casa Sacerdotal Diocesana, exclusiva para padres idosos e doentes.
VIDA (RELIGIOSA) DE RISCO
Pelo menos um terço dos mais de 90 padres da Diocese de Marília não dispõe da mesma oportunidade de acolhida fraternal. Sem a companhia de vigários, ao retornar à casa paroquial após mais um dia de celebrações e atendimentos, o sacerdote reencontra a solidão.
A angústia da cama vazia – pelo menos para os que observam o celibato e a castidade – somada aos conflitos com a própria sexualidade e com a hierarquia da Igreja, bem como à sobrecarga administrativa e financeira implica em sofrimento psíquico abafado pela cultura do silêncio e na crença da autossuficiência espiritual.
Não por acaso, na apresentação de denúncias envolvendo padres — inclusive encaminhadas a este blog —, observa-se a recorrência de relatos sobre relacionamentos homo e heteroafetivos mantidos em segredo, abuso no consumo de álcool e uso compulsivo de pornografia
A dificuldade em entender a própria humanidade como sinais de ‘fraqueza espiritual’ e ‘insuficiência vocacional’ acaba por desencadear nos padres crises de ansiedade, depressão e, em último caso, atos contra a própria vida.
Não por acaso, o cuidado com a saúde mental foi o tema principal do curso de atualização pastoral do clero – com ênfase na síndrome de burnout – e dos diáconos permanentes com suas esposas, em maio de 2025, em Adamantina (SP).



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