CAMPUS DE ESPERA
- Rodrigo Viudes
- há 2 horas
- 6 min de leitura
Greve geral paralisa Unesp de Marília no tempo das reivindicações. Histórico de mobilizações ajusta ponteiro de universitários, professores e técnico-administrativos na conquista por melhorias. Relógio eleitoral ajusta compasso de mobilização em dias de polarização política

Dez anos após a última paralisação em seu campus, a Faculdade de Filosofia e Ciências (FFC) de Marília, uma das mais antigas unidades da Universidade Estadual Paulista (Unesp) do interior paulista, está de volta ao tempo das reivindicações.
Deflagrada pelos estudantes desde as 7h do último dia 15 – apenas três dias após o estopim do movimento pelos colegas de Bauru (SP) – a greve geral em Marília se consolidou desde o dia 20 com a adesão de professores e técnico-administrativos.
Na pauta, reclames que se arrastam por décadas – recuperação de perdas salariais, isonomia de remuneração, melhorias no restaurante e moradias estudantis, entre outros – e que, neste ano eleitoral de 2026, reativaram as mobilizações.
Neste texto, o blog percorre o tempo das demandas do campus de Marília, outrora a vanguarda de grandes movimentos grevistas, com ponteiros acertados com a análise jornalística independente – que aqui não perde hora.
ANOS DE CHUMBO
As manifestações no ensino superior público paulista em Marília remontam a década de 1960, nos anos de chumbo da ditadura militar (1964-1985), na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (Fafi) – predecessora da atual FFC.
Sob a atenta perseguição de agentes a serviço dos órgãos de repressão, ainda na vigência do Ato Institucional 5 (AI-5), alunos dos cursos de História e Ciências Sociais espalharam suas ideias de resistência em jornal estudantil.
O ‘Fafeto’, impresso em folhas sulfite e publicado entre 1975 e 1977 pelo Diretório Acadêmico XV de Março, circulava de mão em mão com sua tese anarquista contra os “catarros de conhecimento” por “professores ignorantes”.

A criação da Unesp, chamada de ‘III Universidade’ – em alusão à sua instituição posterior à USP, em 1934 e à Unicamp, em 1962 – também foi criticada pela transferência do curso de História para o campus de Assis (SP), em 1976.
“Um alerta a todos: em consequência das centralizações dos cursos, seremos mais vulneráveis a pagar o ensino! É o que pensam eles, nóis (SIC) não, né”, afirmou o Fefito, em crítica às escolas “privadas (ao pé da letra)”.
TEMPO DE OCUPAÇÕES
Passados mais de dez anos da criação da Unesp, além do fim do regime militar, o dilema da moradia estudantil persistia entre os alunos no campus de Marília. Sem mais tempo a perder, eles recorreram ao teto que já tinham.
Em 1987, os estudantes decidiram residir em salas de aula, até que o Estado providenciasse um local adequado para que pudessem morar e estudar. A mobilização em Marília foi o ‘berço’ da instalação da primeira moradia estudantil da Unesp.
Inaugurada em 1990, no Jardim Morumbi, a dois quilômetros do campus, a habitação universitária receberia os alunos que ainda residiam na FFC, encerrando o mais longevo protesto estudantil da história do campus, após três anos e seis meses.
Os alunos voltariam a protagonizar outras ocupações no campus em 1999, 2007 e 2013, quando chegaram a bloquear as rodovias Comandante João Ribeiro de Barros (SP-294) e Transbrasiliana (BR-153).
ATRASO NA OBRA
A moradia voltaria a entrar na pauta do movimento estudantil na ocupação ocorrida em 1996 – e não sairia mais, até os dias de hoje. De início, pela superlotação: as 96 vagas disponíveis foram insuficientes para atender à demanda.
Mais de três décadas após sua inauguração, a moradia estudantil já sofria com problemas estruturais de infiltrações e problemas em instalações elétricas e hidráulicas que demandaram urgência por uma reforma geral.
A obra, contratada pelo Estado ao custo de R$ 1,3 milhão, teve início oficialmente em 7 de dezembro de 2024, com prazo de término de até 240 dias. Ou seja, até 4 de agosto de 2025 – o que não foi cumprido pela empresa contratada.
“Estamos no momento de negociação de um novo prazo”, informou a diretoria da FFC ao blog, enquanto disse estar “buscando a melhor forma de atender nossos estudantes que dependem de condições efetivas para desempenharem as atividades acadêmicas”.
O blog visitou a moradia estudantil no último dia 21. Encontrou homens trabalhando. O serviço daquela tarde seria a instalação de uma calçada, com rampa de acesso do novo espaço de convivência, cuja porta de vidro havia sido instalada no dia anterior.
Pelo menos metade da moradia já havia recebido parte das melhorias previstas: pintura, novas portas e janelas, piso. O telhado ainda necessitaria de reparo. Do outro lado, as outras casas ainda aguardavam pelos mesmos serviços.
“Aqui ainda vai levar uns dois meses para terminar, viu”, estimou um funcionário. Enquanto isso, os alunos que residiam regularmente na moradia estudantil – e outros, acolhidos por eles – aguardam em imóveis alugados.
O atraso na entrega da reforma superou o prazo inicial de locação, obrigando a prorrogação de contratos imobiliários e gerando custos adicionais para os alunos, além da desistência da continuidade nos estudos.
Segundo a diretoria da FFC, 60 estudantes cadastrados na moradia estudantil têm direito ao pagamento de auxílio deslocamento – além de outros benefícios socioeconômicos que variam entre R$ 440 e R$ 550.
“Trata-se de um auxílio [de aluguel] pago pela Pró-Reitoria de Planejamento Estratégico e Gestão, da Reitoria da Unesp, que tem feito todos os esforços para atender às necessidades dos estudantes, sempre que possível”, informou a diretoria.
PAUSAS E DEMANDAS
Uma paralisação geral como a atual no campus da Unesp de Marília, com a participação de estudantes, professores e técnico-administrativos não ocorria desde 2016. Iniciada em maio, como desta vez, terminou em junho.
Na época, a pauta unificada dos três segmentos reivindicava mudanças como o reajuste salarial com recuperação das perdas inflacionárias acumuladas, a paridade de peso de voto na escolha da direção do campus e a isonomia no recebimento de pisos e benefícios.
Passados dez anos, os reitores limitaram a correção dos salários a 3,47% - ante 15,97% pedidos pelos servidores, o que deflagrou novas greves. E eleições nos campi seguem na proporção de 70% (docentes), 15% (técnico-administrativos) e 15% (alunos).
Por outro lado, a pressão contrária da paralisação de 2016 ao Programa de Inclusão com Mérito no Ensino Superior Público Paulista (Pimesp) levou os conselhos universitários a rejeitar a implantação na Unesp, na USP e na Unicamp.
HORA SEM LANCHE
Além da moradia estudantil, o Restaurante Universitário (RU) está, de novo, no foco das reivindicações da pauta unificada do movimento atual na Unesp em Marília. Motivo: não há alimento para todos.
Segundo o terceiro aditivo do Termo de Colaboração vigente da terceirização do serviço, assinado em 2013, a empresa contratada deve oferecer 325 refeições diárias, de segunda a sexta-feira, exceto feriados.
A quantidade, no entanto, atende apenas 19,14% dos atuais 1.698 alunos matriculados nos nove cursos de graduação – sem contar os 673 da pós-graduação, os 174 professores e os 159 técnicos-administrativos que teriam direito às refeições.
No jantar, o número de refeições cai para 210. Nas férias, a quantidade de almoço é reduzida para 235 unidades. E o prato ainda é subsidiado: o estudante paga apenas R$ 2,94 por refeição, enquanto o Estado complementa R$ 14,46.
“O número de refeições é previsto no Termo de Colaboração e no Termos Aditivos, seguindo normas legais de aferição da capacidade”, afirmou a diretoria do campus. “O Termo de Colaboração com a Associação Seara Norte tem renovação prevista para agosto de 2026”, emendou.
RELÓGIO POLÍTICO
A exemplo de 2016, a ampla mobilização de alunos, professores e técnicos-administrativos antecede as eleições do segundo semestre. Enquanto naquele ano o voto foi municipal, desta vez as eleições são gerais.
Este ‘ingrediente’ político costuma ser ajustado ao ‘timing’ do processo eleitoral, de modo a tentar influenciá-lo, ainda que as melhorias reivindicadas pela massa do eleitorado sejam mais implicadas com demandas econômicas do que educacionais.
Pré-candidato à reeleição ao governo de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos) tem minimizado as manifestações das agremiações universitárias, historicamente ligadas à esquerda, em defesa da manutenção da direita no comando do Estado.
Neste contexto, deputados estaduais de ambos os espectros políticos têm se ocupado das mobilizações universitárias, sejam na capital ou no interior, para performar nas redes sociais e capitalizar votos nas urnas de outubro.
Além da cronologia eleitoral, o Palácio dos Bandeirantes ajustou o alarme da proposta de um novo modelo de repasse de recursos às universidades públicas até o despertar de 2033 da transição nacional da Reforma Tributária.
Até lá, em que pese o curso e o uso do repasse de 9,57% do ICMS Quota-Parte do Estado pelas universidades, o único projeto garantido é aquele das reivindicações que voltarão à pauta, inclusive as da Unesp de Marília, porque a política é o campus dos paulistas.



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