ELEIÇÕES EM FAMÍLIA
- Rodrigo Viudes
- 23 de jul.
- 5 min de leitura
Atualizado: 30 de jul.
ANÁLISE: Anúncio de vice-prefeito como candidato a deputado estadual expõe disputa de espaços de poder entre Camarinhas pai e filho na política de Marília. Casal em mandato confirma busca por reeleição na Alesp e na Câmara dos Deputados

Anunciado por si próprio como candidato a deputado estadual, o vice-prefeito de Marília, Rogério Alexandre da Graça, o Rogerinho (PP), deflagrou nesta quarta-feira (22) uma disputa que vai além das urnas de outubro.
A candidatura de um representante do governo municipal à Assembleia Legislativa arrastou o prefeito, Vinicius Camarinha (PSDB), a um confronto particular com o pai, ex-prefeito e ex-deputado, Abelardo Camarinha (Podemos).
Neste texto, analisamos como esta disputa eleitoral familiar afeta diretamente outras candidaturas e, em último grau, pode até contribuir para o esvaziamento da
representatividade da cidade no cenário político estadual.

AMPARO LEGAL
Rogerinho confirmou sua candidatura 36 horas após a convenção partidária que havia definido, na noite de segunda-feira (20), os nomes da Federação União Progressistas para senador e deputado federal e estadual.
Do ponto de vista partidário, a declaração do vice-prefeito já estaria amparada pela redação da ata, ainda que seu nome não tenha sido listado, por suposta escolha “às vagas remanescentes” pela Comissão Executiva Estadual.
Além do mais, apesar das convenções partidárias, terão efeito para fins de registro de candidaturas aquelas apresentadas entre os dias 5 e 15 de agosto, a serem submetidas ao crivo do deferimento da Justiça Eleitoral.
VICE NO JOGO
Afora a necessidade de recursos para a campanha – citada por este blog nesta terça-feira (21) como um suposto impasse para a candidatura de Rogerinho (PP) – a entrada
do vice-prefeito no jogo eleitoral atende a uma estratégia política.

No caso, a de Vinicius, que recorreu a ele – e não à esposa, Tássia Camarinha (PSDB), apesar da preferência – como um nome de governo, mas não pelo sobrenome, na disputa de uma cadeira na Alesp.
Na prática, Vinicius endossou o vice como concorrente à própria madrasta, a vereadora Fabiana Camarinha (Podemos), anunciada ainda em março deste ano como pré-candidata a deputada estadual pelo marido, que segue inelegível.
De sua parte, Rogerinho enfrentará as urnas sem preocupar-se com a derrota após duas vitórias consecutivas para vereador, em 2020 e para o cargo atual, em 2024. Decerto, retomará o mandato que já exerce – e, por isso, candidato – até 2028.
DISPUTA EM FAMÍLIA
Fabiana não é o alvo de Vinicius. Eleita com a maior votação da história da Câmara Municipal de Marília, a vereadora compõe a ampla base do prefeito. Em um ano e
meio, nunca votou contra em qualquer matéria de interesses do governo.

Ao apoiar Rogerinho, Vinicius aponta para Abelardo, com quem disputa a ocupação de espaços nos poderes – do Executivo municipal ao Legislativo paulista – em um processo de transição político-familiar com histórico de embates pessoais.
Neste contexto, cada Camarinha terá um candidato a deputado estadual para chamar de seu: o filho com seu vice e o pai com sua esposa, cada qual ocupando-se dos próprios interesses no confronto eleitoral.
FATOR ABELARDIANO
Abelardo, por sua vez, escolheria ser o próprio candidato não fosse a decisão do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP) que reformou a contagem dos cinco anos de suspensão de seus direitos políticos para maio de 2027.
A ação por improbidade administrativa já o havia submetido, em 2020, a um constrangimento inédito em sua carreira política de cinco décadas, a mais longeva da história de Marília: ser candidato sem poder votar e ter seus 35.006 votos anulados pela Justiça Eleitoral.
Aos 74 anos, Abelardo não exerce cargo eletivo desde 2019, quando encerrou o 3º mandato de deputado estadual. O seu patrimônio – o eleitoral – diminuiu pela metade em comparação com 2000, quando recebeu 64.318 votos para prefeito – a maior votação ao cargo da história de Marília.
Caso não consiga reverter sua inelegibilidade a tempo de disputar as eleições de outubro, Abelardo não poderá concorrer a um quarto mandato de prefeito, em 2028, por impedimento legal de parentesco com Vinicius.
Restará esperar pelas Eleições-2030 quando, se apto, poderá disputar novamente uma cadeira na Alesp ou na Câmara dos Deputados. Uma eventual nova disputa pela Prefeitura de Marília ocorreria apenas em 2032, aos seus 80 anos.
CONCORRÊNCIA AMPLIADA
O blog apurou que a representatividade do governo municipal nas urnas será estendida a outros nomes do grupo político de Vinicius a serem confirmados, um a um, nas convenções políticas.
Nesta quarta-feira (22), os bastidores políticos indicaram, por exemplo, a escolha pelo vereador Galdino da Unimar (Cidadania). Em nota, ele admitiu “avaliar a possibilidade de aceitar a missão”, referindo-se à eventual candidatura à Alesp.

A vereadora Rossana Camacho (PSD), que acaba de retomar a cadeira na Câmara, também entraria neste ‘combo’ de ‘candidaturas do prefeito’ à Alesp. Aliado a Vinicius, o presidente do Legislativo, Danilo da Saúde (PSDB), deve ficar de fora.
ESVAZIAMENTO DE REPRESENTATIVIDADE
Essa movimentação de Vinicius concilia seus interesses político-familiares aos dos futuros candidatos que, inclusive Rogerinho, sabem que as chances de eleição são remotas para quem deseja entrar agora na corrida pela Alesp.

O empilhamento de candidaturas acaba por fragmentar a votação do eleitorado local, dificultando a possibilidade de êxito nas urnas sem que os candidatos tenham a estrutura necessária de campanha para capitalizar apoio regional.
Em último grau, a multiplicação de candidaturas pode impor à cidade o risco de esvaziamento de sua representatividade na Assembleia estadual, o que abriria uma futura oportunidade política ao próprio Vinicius.
Na hipótese, hoje remota, de que não possa ou queira disputar sua reeleição em 2028, restaria ao atual prefeito reaparecer em 2030 como candidato a deputado estadual na região, onde ainda exerce forte influência pela convivência de quatro mandatos e meio no Legislativo paulista.
ELEITOS NAS URNAS
Além da madrasta e dos aliados políticos, a proliferação de candidaturas à Alesp capitaneada por Vinicius também atinge a oposição – hoje, única detentora de cadeira, com Dani Alonso (PL), após sua renúncia para disputar a Prefeitura de Marília.

Ainda que possa receber menos votos em Marília, a parlamentar tem a seu favor a expansão de seu capital político regional – ocupando-se do espólio político deixado pelo próprio Vinicius – para compensar a diferença e alcançar a reeleição.
Dani Alonso, aliás, confirmou sua presença nas urnas, ao lado do marido e deputado federal, Capitão Augusto (PL), na convenção estadual do partido, realizada na manhã desta quarta-feira (22) em São Paulo.




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