O SERMÃO DAS URNAS
- Rodrigo Viudes
- há 7 minutos
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Entre tapetes, procissão e Eucaristia, bispo de Marília alerta para efeitos da polarização em eleições disputadas em clima de Copa. Santíssimo Sacramento repete mobilidade de fé com criatividade e homenagem póstuma. Caminhe pela trajetória da seleção, da diocese e dos governos antes, durante e depois da retomada da tradição dos tapetes de rua na cidade

A menos de duas semanas da estreia da seleção brasileira na Copa do Mundo, a cerimônia de Corpus Christi desta quinta-feira (4), em Marília, parecia tabelar com os tons tupiniquins que, agora, começaram a aparecer nas ruas e vitrines da cidade.
Debaixo da maior ‘taça’ do catolicismo – o ostensório, com o Santíssimo Sacramento – o banner oficial da celebração reproduzia formas e cores da bandeira nacional: o amarelo de fundo, com o verde das samambaias e o logotipo, redondo e azul, da Diocese de Marília.

Apesar do clima esportivo do momento, dom Luiz Antonio Cipolini escalou outro tipo de jogo – a saber, o político –, a ser disputado em arena própria – as eleições de outubro, nas urnas – em sua homilia na missa campal ao lado da Catedral São Bento.
Diante de milhares de católicos que lotaram a quadra da rua Sergipe, da lateral da igreja ao meio da Praça Maria Izabel, o bispo convocou os fiéis à consciência dos valores necessários para a comunhão entre escolha de candidatos e votos.

DESERTO DE ÉTICA
Em toda sua homilia, dom Luiz se manteve dentro das quatro linhas da análise teológica católica das leituras e dos contextos sociais e políticos. Não citou partidos, pré-candidatos. Quem ouviu – inclusive, por Libras – entendeu.
Ainda no início, ao comentar sobre os desertos “que vivemos hoje” – “falta de amor”, “violência”, “indiferença” –, o bispo acrescentou ainda os da “corrupção” e da “falta de ética na política”.

“O próprio direito afirma que devemos e podemos exigir certas qualidades morais das figuras públicas. A presunção da inocência não é autorização para mentir na arena pública como se a verdade fosse uma irrelevância”, afirmou.
E continuou: “Para o bom funcionamento do Estado democrático de direito, não basta o cumprimento das disposições legais, mas também a exemplaridade ética e a idoneidade moral”.
POLARIZAÇÃO CEGA
Em sua análise da leitura da carta de Paulo, em que o apóstolo diz existir “um único pão”, em referência à Eucaristia que “destrói as divisões e constrói pontes”, dom Luiz exortou novamente seu rebanho eleitoral a pensar.
“Vivemos tempos marcados pelo individualismo. Muitos perderam a capacidade de ouvir, acolher e perdoar. A polarização cega nossa capacidade de enxergar e o direito de exigir integridade de nossos políticos na vida pública e na esfera profissional”, falou dom Luiz.
O bispo falou diretamente àqueles que, por ideologias partidárias, desprezam quem pensa diferente – inclusive, por influência de padres e freis, pelas redes sociais. “A Eucaristia nos ensina a comunhão. (10:58) Não existe verdadeira adoração a Jesus sem fraternidade”, afirmou.

A homilia foi acompanhada por “autoridades civis e militares”, cuja presença foi agradecida pelo bispo pela “comunhão, respeito e colaboração com a missão evangelizadora da nossa Igreja Católica Apostólica Romana”.
Prefeito de Marília, Vinicius Camarinha (PSDB) não ouviu. Estava em viagem a São Paulo, segundo informou a assessoria. O vice Rogerinho (PP), por sua vez, foi um dos poucos políticos que apareceram na celebração católica.

ARTE ORANTE
Pela sétima vez desde 2018 – exceções aos anos de 2020 e 2021, devido a restrições impostas pela pandemia – ruas e avenidas centrais voltaram a ser decoradas com os tradicionais tapetes feitos de serragem, tampinhas, tintas e criatividade.
“Não são apenas arte. São oração feita com as mãos. Cada desenho revela a fé. Cada cor revela esperança. Cada detalhe revela amor. Os tapetes são o retrato de uma igreja viva onde todos colaboram. E isso é sinodalidade”, afirmou o bispo.

Como de costume, a decoração ficou a cargo das 20 paróquias de Marília. Em 2018, quando a tradição foi retomada após décadas, eram 17. Ainda naquele ano foram criadas as de Nossa Senhora Rosa Mística, na zona leste e Santa Edwiges, na zona norte.
Os fiéis da paróquia João Bosco e Nossa Senhora Auxiliadora participaram da confecção dos tapetes pela primeira vez. A paróquia foi fundada em janeiro. A mais antiga é da catedral São Bento, criada em 1929, ano de fundação de Marília.
Além das figuras comuns – imagens de santos, cálices, hóstias, igrejas – a paróquia São Miguel Arcanjo, da zona norte, fez um desenho póstumo do rosto de dom Osvaldo Giuntini, falecido em 2025, aos 89 anos.

MOBILIDADE EUCARÍSTICA
Desde a retomada da tradição dos tapetes de rua do Corpus Christi em Marília, o Santíssimo Sacramento percorreu caminhos e chegou a destinos diferentes, partindo na maioria das vezes da Catedral Basílica São Bento, no centro.
Em 2018 e 2019, o cortejo desceu a rua Sergipe, passou pela avenida Pedro de Toledo e seguiu a Nove de Julho até a Matriz de Santo Antonio. A procissão só foi retomada em 2022, após a pandemia.

Naquele ano, a diocese resolveu realizar a missa campal no estádio “Bento de Abreu Sampaio Vidal”, o Abreuzão. De lá, o povo andou pela avenida Vicente Ferreira, rua Limeira e avenidas República e Pedro de Toledo, até a catedral.

Desde 2023, o Corpus Christi segue o roteiro atual: missa na São Bento, saída pela avenida Nelson Spielmann, passando ainda pela Nove de Julho e Sampaio Vidal, com bênção final em frente às escadarias do Santuário Nossa Senhora da Glória.

COPA, POLÍTICA E BISPOS
O Brasil já era tricampeão do mundo de futebol quando houve a interrupção das procissões de Corpus Christi em Marília, em meados dos anos 1970. Desde 2018, ano do Mundial na Rússia, a seleção não passou das quartas de final, a exemplo do que ocorreu na Rússia, em 2022.
A celebração eucarística interrompeu sua primeira fase histórica em dias de ditadura (1964-1985) no Brasil. Quando retornou, após a redemocratização, a cidade já havia conhecido sete prefeitos, 12 governadores e oito presidentes.
As tradicionais procissões de Corpus Christi começaram com o primeiro bispo diocesano de Marília, dom Hugo Bressane de Araújo (1889-1988), entre 1954 e 1975; foram interrompidas no episcopado de dom frei Daniel Arnaldo Tomasella (1923-2003), entre 1976 e 1992; não ocorreram com dom Osvaldo Giuntini (1936-2025), entre 1993 e 2013; e só voltaram com dom Luiz Antonio Cipolini, em seu quinto ano como quarto bispo diocesano de Marília.
