PRONTUÁRIO DA FESTA
ANÁLISE: Do anúncio à liberação judicial até o palco do Marília Rodeo Music, a trajetória de R$ 2,254 milhões dos cofres públicos para os shows de Gusttavo Lima e Maiara & Maraísa . Entre contratos, remanejamentos e decisões, o dinheiro reservado à Saúde entra na operação, enquanto o cidadão paga a conta e ainda precisa levar o pão

Desenganado de véspera após um mal-estar jurídico entre o Ministério Público (MP), o Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP) e a Prefeitura de Marília, o show de Gusttavo Lima está de alta para abertura do Marília Rodeo Music (MRM), nesta quinta-feira (17).
O atual ‘embaixador’ da Festa do Peão de Barretos, conhecido por suas ações filantrópicas em prol do Hospital do Amor, subirá ao palco após receber a transfusão de R$ 1,5 milhão dos cofres públicos de Marília para seu patrimônio bilionário.
Neste texto, o Blog do Rodrigo explica como os três poderes de Marília – Executivo, Legislativo e Judiciário – atuaram, cada qual em sua especialidade, para que recursos públicos de Saúde e Educação acabassem gastos em shows de uma festa cedida à iniciativa privada.
EXECUTIVO: OPERAÇÃO CONTRATUAL
A apresentação de Gusttavo Lima em Marília já era conhecida há exato um mês. O anúncio partiu do prefeito de Marília, Vinicius Camarinha (PSDB), por meio de suas redes sociais. Àquela altura, Panda e Maiara & Maraísa já estavam confirmados.
Dos três, apenas Panda constava na lista seleta de atrações artísticas incluida em contrato firmado entre a Prefeitura de Marília e a empresa organizadora do evento, segundo informou este blog com exclusividade.
Gusttavo Lima e Maiara & Maraísa foram contratados pela Prefeitura de Marília, “por conveniência e oportunidade”, segundo consta em cláusula inclusa no mesmo contrato de terceirização de organização do MRM. Veja:

Seguem abaixo os extratos de contratos:


A liquidação dos pagamentos dos shows – que, na prática, é um reconhecimento de despesa – entrou na contabilidade municipal nos dias 11 e 14 de agosto: R$ 1,5 milhão, para Gusttavo Lima e R$ 754 mil para Maiara & Maraísa, respectivamente. Veja:


LEGISLATIVO: REMÉDIO FINANCEIRO
Uma semana depois, em 20 de agosto, a Prefeitura de Marília publicou o Decreto 15.074, em que remanejou o recurso necessário – e, no caso, exato – para cobrir a despesa de R$ 2.254.000,00 assumida com as duas apresentações artísticas. Veja:

Conforme o blog divulgou, a administração optou por recursos até então reservados para a Saúde (R$ 1.530.000,00), Planejamento Urbano (R$ 500 mil), Educação (R$ 170 mil) e Cultura (R$ 19 mil).
Ou seja, os shows foram custeados com 100% de recursos públicos, ainda que a Prefeitura de Marília tenha informado, em nota, que os contratos foram firmados “em parceria com a iniciativa privada”.
Não é o que consta no Portal da Transparência da própria Prefeitura de Marília. Veja:


O decreto que possibilitou a abertura de crédito adicional suplementar para acomodar a despesa artística do MRM está sustentado em uma autorização legislativa aprovada em dezembro de 2025. Veja:

No caso, a autorização concedida pela Câmara Municipal de Marília a Vinicius – a quem serve, majoritariamente – para o remanejamento de até 10% das despesas no orçamento geral da cidade para 2026.
JUDICIÁRIO: PÓS-OPERATÓRIO
Uma das poucas vozes críticas à administração municipal na atual legislatura, o vereador agente federal Júnior Féfin (União Brasil) recorreu ao Ministério Público para questionar os valores pagos aos shows com dinheiro público.

O pedido de apuração foi protocolado pelo vereador na Procuradoria Geral do Estado na terça-feira (10), mesmo dia em que os contratos foram formalizados pela prefeitura com as empresas que representam Gusttavo Lima e Maiara & Maraísa.
Os pagamentos seriam autorizados para o cantor no último sábado (12) e à dupla feminina, na segunda-feira (14), preferencialmente a outras despesas municipais, segundo publicações no Diário Oficial em meio a um embate jurídico.
Veja:


Ainda na segunda, o Ministério Público ingressou com ação civil pública em que solicitava, com urgência, o impedimento dos pagamentos – que já haviam sido realizados. A Justiça de Marília negou no mesmo dia.

Em sua decisão, o juiz Walmir Idalêncio dos Santos Cruz, da Vara da Fazenda Pública, reconheceu a “ausência de recursos financeiros mínimos para custeio de serviços públicos essenciais e pagamento de pessoal” na Prefeitura de Marília.
No entanto, quanto aos pagamentos dos shows, argumentou: “Ao Poder Judiciário não cabe se imiscuir na análise discricionária das prioridades da gestão do orçamento público, o que é próprio do Poder Executivo”.
O MP recorreu na terça-feira (15) ao TJ-SP. Na quarta-feira (16), véspera da abertura do MRM, o desembargador Francisco Bianco suspendeu o pagamento dos shows – que, repita-se, já haviam sido feitos.

Diferentemente da Justiça de Marília, o magistrado reconheceu a argumentação do MP de incompatibilidade entre as pendências de pagamentos aos serviços essenciais e os valores gastos com os shows.
Em sua defesa, a Prefeitura negou que o remanejamento tenha prejudicado o investimento em serviços essenciais, afirmou ter investido 20,50% em Saúde e 29,76% em Educação até junho de 2026 ante os 15% e 25% mínimos exigidos por lei.
E ainda reconheceu os pagamentos dos shows, o que definiu como algo “pontual” e que representaria apenas 0,15% da receita líquida corrente – ou seja, o dinheiro disponível no caixa da Prefeitura.

Era fim desta quarta-feira, quase 24h antes da abertura oficial do MRM, agendada para as 19h desta quinta-feira (17), quando o desembargador do TJ reformou a própria decisão, mantendo os pagamentos feitos aos shows.
ANESTESIA POPULAR
Fora dos autos do processo, em suas publicações oficiais no site e nas redes sociais, a administração municipal continua tratando as contratações de Gusttavo Lima e Maiara & Maraísa como “shows solidários”.

Ainda que o acesso gratuito tenha sido firmado no contrato entre a Prefeitura de Marília e a empresa organizadora, o cidadão precisa doar um quilo de alimento não perecível para ter direito ao ingresso no MRM.
Ou seja, mesmo que as apresentações principais tenham saído do cofre público da cidade, por meio do pagamento de tributos municipais – IPTU, ISS e ITBI – para participar do circo do rodeio, o mariliense ainda precisa entregar o pão.
Na prática, a administração municipal evocou a solidariedade popular para abarrotar os estoques do Fundo Social e encaminhar os alimentos recolhidos às entidades com o selo da realização da festa.

Distraído pela massificação do anúncio dos shows nas redes sociais e em veículos de comunicação – analógicos e, principalmente, os digitais de Marília – o público-alvo do MRM foi conduzido como gado ao palco do agronegócio.
Nos últimos dias, nem os bovinos que ocupam as fazendas de Marília encontraram dificuldade semelhante à dos trabalhadores que montaram as estruturas do evento em solo encharcado pelas chuvas históricas registradas neste mês.

Instalado em uma área afastada do distrito de Lácio, o MRM tem apenas um acesso, por estrada de chão, cujas condições pós-chuva demandaram o espalhamento de cascalho para viabilizar a passagem de veículos
No caso, os oficiais, da empresa organizadora, dos artistas e de quem quiser se arriscar a encarar o trajeto para ocupar as vagas do estacionamento pago e sem garantia contra eventuais atolamentos.
As imagens mais recentes registradas do espaço utilizado pelo MRM foram feitas pela Drone Marília. No vídeo, aparecem os últimos preparativos para a realização da festa que só termina no sábado (19). Confira abaixo:



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