ÀS OVELHAS SURDAS
- Rodrigo Viudes
- 28 de abr.
- 5 min de leitura
Atualizado: 3 de mai.
Entre o conforto do rebanho e o silêncio da consciência, a fé que se repete já não escuta a própria voz que diz seguir. No eco de discursos prontos e verdades embaladas, cresce uma espiritualidade de conveniência. Quem ainda reconhece o chamado do Bom Pastor nas igrejas em Marília?

O Bom Pastor revisitou a liturgia católica nas celebrações no fim de semana. “Minhas ovelhas escutam a minha voz; eu as conheço, e elas me seguem”, proclamaram nos púlpitos das paróquias e capelas da cidade – da diocese, e no mundo.
A afirmação atribuída a Jesus Cristo segundo o Evangelho de João e anunciada por diferentes denominações cristãs ressoa como oportunidade para um reexame de audição para aqueles cujas ondas sonoras de fé parecem não alcançar.
Diante do que se diz hoje nas igrejas, cabe uma pergunta: ainda se escuta essa voz — ou apenas aquilo que se aprendeu a repetir? A ressonância (ou não) até os ouvidos dos que se dizem fiéis e pastores nas igrejas encontra o eco nesta análise do blog.

Importante: o verbo “surdez” e suas variações semânticas utilizadas ao longo deste texto fazem referência exclusivamente à ausência de escuta de fé e não à deficiência auditiva. Para que todos ouçam, este texto tem opção de leitura em Libras.
SURDEZ OBEDIENTE
Não falta quem queira falar nas igrejas em Marília, muito além da própria Palavra. Há centenas de padres, pastores, diáconos e demais lideranças religiosas. Muito maior é o povo a quem se dirige tanta pregação. São 177,2 mil que se declararam cristãos - 84,6% da população, segundo o Censo 2022 do IBGE.
Em parte deste rebanho, persiste uma surdez, que não se trata de ausência de audição. Há um tipo de fé que não se recusa a ouvir — apenas filtra. Escolhe o que conforta, ignora o que confronta, e adapta o chamado à própria conveniência.
Nesse processo, a escuta deixa de ser encontro para se tornar mera confirmação. Nas igrejas, o pertencimento vale mais que a consciência. O reconhecimento pelo nome, que no Evangelho sugere proximidade, dá lugar à visibilidade de cargos.

A igreja fica previsível, manejável, alinhada ao que já se espera. Prega uma fé que não desinstala, não provoca, não exige — apenas acompanha. O resultado é um rebanho que caminha, mas não necessariamente segue, submisso, e em silêncio.
PASTORES DE SI
Tais comunidades costumam estar a serviço de lideranças religiosas que, via de regra, conduzem seus fiéis tais como criadores de ovinos, tosando-as com ritos e dogmas, enquanto não venha o abate para o céu.
Oferecem, então, um “pasto sob medida” para as ovelhas: palatável, acessível, cuidadosamente preparado para não gerar rejeição. A Palavra, que deveria confrontar, é suavizada. A exigência, diluída.

Há uma inversão silenciosa nesse processo. O pastor que alimenta também é nutrido pela expectativa do próprio rebanho. Nesta troca de interesses, além de surdas, as ovelhas se fazem de cegas à obrigação de enxergar além da admiração.
Não há aqui apenas má-fé, mas um sistema que se retroalimenta: líderes que oferecem respostas prontas para fiéis que já não fazem perguntas. Nesse arranjo, a voz original – a saber, a de Cristo – vai ficando mais longe de onde deveria ecoar.
BONS PASTORES
Apesar dos lobos de ternos e batinas, há bons pastores que se fazem conhecer por suas ovelhas e, não obstante as imperfeições próprias da natureza humana, se tornam a feição mais próxima de Cristo entre elas.

São homens e mulheres que apesar dos redis institucionais em que se enfiaram para chegar até as ovelhas, ocupam-se de ensiná-las a alcançar outros campos da vida além do confinamento dos cercamentos eclesiais.
É gente dedicada a ensinar as ovelhas a ouvirem o Evangelho por meio da franqueza das palavras, sem qualquer melindre com as reações do rebanho – porque antes nutri-las com a Verdade do que servi-las às gramíneas da ignorância.
Por isso, caminham junto ao seu rebanho, misturando-se com ele, a ponto de serem notados apenas pelo cajado de seu exemplo de vida e pelo pastoreio, e não pelas vestes de sua própria vaidade, como que a condutores de bovinos.
Os bons pastores ainda podem ser encontrados em algumas igrejas de Marília e região, por exemplo. A forma como ensinam suas ovelhas a ouvirem e serem livres em Cristo é um indício do caráter divino de sua oratória pastoral.
REDIL SEM PORTAS
A imagem do redil, presente no Evangelho, remete a proteção. Trata-se de um espaço para guardar as ovelhas. Mas, para o cuidado, não o confinamento. Nas igrejas, o que deveria abrigar, em muitos casos, passou a limitar.
Estruturas religiosas, cercadas por ritos, normas e tradições, constroem ambientes em que a saída não é proibida, mas desestimulada. Questionar se torna desconfortável. Duvidar, arriscado. Buscar por conta própria, quase um desvio.

A religião, quando instrumentalizada, deixa de ser caminho e passa a ser circuito. O fiel circula, participa, repete — mas raramente atravessa. E aqui reside uma das contradições mais evidentes, ainda sobre a parábola do Bom Pastor.
Fala-se constantemente da “porta”, mas ela parece cada vez menos acessível. Sem educação crítica, sem autonomia espiritual, sem espaço para a dúvida honesta, o redil deixa de proteger e passa a aprisionar — ainda que de forma sutil, as ovelhas que ousam berrar.
CRISTO SEM ACESSOS
Há, no cenário atual, um deslocamento evidente. De um lado, multidões que seguem — mas não necessariamente escutam. De outro, indivíduos que já não seguem ninguém — e, ainda assim, permanecem à deriva.

Entre esses extremos, a figura do pastor se fragmenta. Multiplicam-se vozes, interpretações, lideranças. Cada uma reivindica legitimidade, oferece direção. Mas quem ainda reconhece a voz?
A pergunta não é retórica. É estrutural. Em nome de quem se responde hoje? A quem se atribui autoridade? O que define, de fato, o seguimento — a tradição, a instituição ou a experiência?
Talvez o problema não esteja na ausência de pastores. Nem mesmo na existência de maus condutores, mas no excesso de vozes que ocupam o espaço daquilo que deveria ser inconfundível.
E, no meio desse ruído todo, permanece uma questão que atravessa séculos: quem, afinal, escuta o Bom Pastor? Decerto, muitos. Apenas uma entre 100? Talvez. Enquanto isso, reina o silêncio na pastagem das ovelhas surdas.

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