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  • Rodrigo Viudes

AO MESTRE TABICHI

Atualizado: 4 de Abr de 2019

Confira sete lições que o frade eleito melhor professor do mundo tem a ensinar ao clero católico, da capelinha ao Vaticano


Peter Tabichi recebe a premiação de 'melhor professor do mundo', em Dubai (Crédito: Clint Egbert)

A escolha de um frade franciscano, o padre queniano Peter Tabichi, 36 anos, como o melhor professor do mundo entre mais de 40 mil concorrentes, segundo a Fundação Varkey, elevou ao ponto mais alto do magistério o representante de uma das ordens mais conhecidas da Igreja Católica.

Além de servir de inspiração às centenas de alunos e às comunidades que atende diariamente em uma escola de uma região semiárida, pobre e rural do Quênia (veja a história aqui), Tabichi tem muito a ensinar ao próprio clero - e, não raro, em condições melhores que a dele.

Considerando a conduta digna de nota zero de seminaristas, padres, bispos, entre outros, selecionamos sete lições que as atitudes de Tabichi ensinam - e as reprováveis, que nunca deveriam ter sido ministradas por aqueles que se põem como mestres no ensino da Palavra de Deus.



1 - ELE PROMOVE CRIANÇAS E JOVENS, NÃO ABUSA DELAS

Professor de Ciências, Tabichi incentivou seus alunos à busca do conhecimento em condições precárias: salas superlotadas, preenchidas por crianças de famílias sobreviventes da seca e da fome, contadas entre órfãos e atingidas pelo uso de drogas, gravidez na adolescência e o suicídio. Um cenário semelhante ao de menores vitimados por estupradores de batina, que se aproveitam da fragilidade social e da autoridade eclesiástica para abusar sexualmente de crianças e adolescentes.


Peter leciona sozinho em aulas superlotadas em uma escola rural (Crédito: Fundação Varkey)

2 - ELE QUASE TODO SEU SALÁRIO PARA AJUDAR SEUS ALUNOS, NÃO ASSALTA A PRÓPRIA IGREJA

Tabichi emprega cerca de 80% do próprio salário na aquisição de uniformes, material escolar e alimentação para seus alunos. Faz jus ao voto de pobreza que professou. Vive com o que lhe sobra em um lugar marcado pela miséria. O frade já avisou que aplicará o prêmio de US$ 1 milhão (R$ 3,9 milhões) que recebeu da Fundação Varkey em prol dos projetos que mantém com alunos, a escola e comunidades no Quênia. Enquanto isso, muitos de seus colegas padres e bispos, entre outros, além de não dividirem nada do que recebem, ainda desviam recursos de suas paróquias, dioceses e instituições mantidas pela Igreja, acumulam bens (inclusive com o apoio de leigos-laranjas) e rejeitam qualquer tipo de transparência na prestação de contas.


3 - ELE LEVA O CELIBATO A SÉRIO, NÃO É UM ABUSADOR OU PROMÍSCUO

O melhor professor do mundo é um frade franciscano e, por regra, observa também o voto de castidade. O exemplo dele é contado cada vez mais entre poucos na igreja. A começar pelos religiosos acusados e condenados por crimes sexuais, por exemplo. Mas não são apenas estes. Há os que levam uma 'vida dupla', dividida entre a que se conhece publicamente, à frente das cerimônias e demais atividades da igreja, e a que praticam às escuras, em relacionamentos homo e heteroafetivos, seja em ambientes privados (os da Igreja, inclusive) e públicos, como banheiros e saunas. E o fazem como se ninguém soubesse.


Peter Tabichi e seu patrimônio: uma Yamaha que usa para trabalhar e visitar comunidades. Ele paga própria gasolina.

4 - ELE VIVE E MORA EM UM LUGAR HUMILDE, NÃO TEM MORDOMIAS

Tabichi leva uma vida simples, condizente com sua vocação religiosa. Ele usa uma motocicleta para se deslocar de casa para a escola e até as comunidades vizinhas. Paga o combustível do próprio bolso. Uma atitude desconhecida para padres e bispos, que nem se constrangem em acrescentar naquilo que a Igreja deve prover tudo o mais que deveria sair da própria carteira. Este blog denunciou um destes casos, ocorrido em Panorama (SP)[leia aqui]. E há muitos outros. Enquanto o cristão sua a camisa para devolver o dízimo, a igreja mantém uma estrutura diocesana digna de monarquias - com palácios inclusos.


5 - ELE PRATICA A 'IGREJA EM SAÍDA', NÃO A DE CLERICALISMOS

As iniciativas de Peter Tabichi não ficam restritas apenas à escola onde leciona. Ele tem visitado as famílias para desencorajar casamentos precoces e para selar a paz entre tribos de diferentes e divergentes etnias. Ou seja: põe em prática a evangelização da igreja para fora, ou 'em saída', como pediu o papa Francisco em sua encíclica 'Evangelli Gaudium' (2013). Neste mesmo documento, o pontífice condenou o clericalismo, denominado por ele mesmo, em 2018, como "uma perversão da Igreja". Padres carreiristas e bispos ególatras e autoritários são exemplos clássicos do que a Igreja não precisa e ainda dispõe em demasia.


6 - ELE INCENTIVA A INOVAÇÃO, NÃO É UM ACOMODADO

Tabichi não precisou de mais do que um computador com frágil sinal de internet para estimular seus alunos à pesquisa e ao desenvolvimento de projetos reconhecidos até internacionalmente - como a criação de um dispositivo que ajuda pessoas surdas e cegas a medir objetos. "Para ser um grande professor, você tem que ser criativo e abraçar a tecnologia", ensina o frade. Esta lição bem que poderia ecoar em tantas dioceses e paróquias que resistem a qualquer tipo de mudança, seja pela inércia de seus fiéis ou pela teimosia de seus párocos.


Peter Tabichi é recebido com festa no Quênia: que outro padre ou bispo mereceria mesmo tratamento?

7 - ELE É MOTIVO DE ORGULHO, NÃO DE ESCÂNDALO

Eis, talvez, a lição que todo padre ou bispo deveria aprender a partir do exemplo de Peter Tabichi e de tantos outros religiosos que levam suas vocações e, principalmente, Deus, a sério. O problema é que a repercussão positiva e mundial da premiação ao frade católico é um oásis no deserto. Na contramão e em proporção muito maior, acumulam-se os escândalos envolvendo padres, bispos, cardeais. A propósito, qual foi o de hoje?



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