JOVENS, MILAGREIROS E SEM ALTAR
A breve vida, a morte e a devoção popular dos santos de sepultura do Cemitério da Saudade de Marília. A menina assassinada por um serial killer. O pianista prodígio que sonhava ser aviador. O “bandido bom” que ganhou fama de Robin Hood. Saiba por que Iracema, o Menino do Piano e Pé-de-Veludo conquistaram devotos, mas não o culto na Igreja Católica como Carlo Acutis.

Deitados aos mais de cem mil, segundo os registros oficiais, os corpos dos finados, lembrados ao menos nesta segunda-feira chuvosa, ocupam as lápides de alvenaria viva ou sob o gramado do Cemitério da Saudade de Marília há 97 anos.
Entre tantos entes queridos e esquecidos, pelo menos três, sepultados entre 1953 e 1964, evocam naquele campo a qualidade de santo por meio das graças alcançadas e agradecidas pela devoção popular.
Iracema Rufino dos Santos, 7 anos. Antonio ‘Carlos’ Nascimento da Silva, o ‘Menino do Piano’, 18. Guaracy Marques Pinto, o ‘Pé-de-Veludo’, 21 anos. Jovens alçados a santos de sepultura, cuja memória a fé popular não permite envelhecer.
Neste texto, o blog recorda a breve vida, a morte e a fama de intercessão atribuída a estes três ‘milagreiros’ e explica por que nenhum deles deverá ter o culto prestado nos altares da Igreja Católica a exemplo de São Carlo Acutis, morto aos 15 anos.

IRACEMA RUFINO DOS SANTOS | A ‘SANTINHA DE MARÍLIA’
13.03.1946 – 01.03.1953
Iracema foi a primeira filha do trabalhador rural, Geraldo Rufino dos Santos, e de Maria Imaculada da Conceição. Antes dela, haviam nascido dois meninos e, depois, mais um casal de rebentos, elevando a sete os habitantes de uma casa simples.
A exemplo de tantas crianças de sua época, Iracema brincava na rua. Na tarde de domingo de 1º de março de 1953, o pai percebeu sua falta e, após procurar pela vizinhança, resolveu registrar o desaparecimento na polícia.
Naquele mesmo dia, uma equipe de investigadores fez uma varredura e encontrou, quase à meia-noite, o corpo seminu da menina em meio ao matagal da Fazenda Cascata, na zona leste da cidade. Era Iracema.

O exame necroscópico confirmaria a causa da morte da vítima: “As lesões das genitálias da vítima eram suficientes para produzir-lhe a morte, não tivesse sido ela morta antes por asfixia”, concluiu o legista.
O assassino confesso seria preso quatro meses depois: um vizinho, Francisco de Marco, mas conseguiria fugir – segundo ele, após encontrar uma chave no pátio – pela porta principal da antiga Cadeia Pública de Marília.
Francisco seria recapturado em 1961 em Guaxupé (MG), após estar com mandado de prisão pela morte de um garoto e o estupro de uma menina. De volta a Marília, foi condenado a 19 anos e seis meses de prisão. Ele deixaria a prisão em 1981.

Aos 66 anos, o assassino de Iracema retornaria às páginas policiais, acusado de ser um serial killer pela morte de outras quatro crianças ocorridas entre outubro de 1982 e abril de 1984, em Rio Claro (SP).
No Cemitério da Saudade, a devoção popular a Iracema escalou das velas acesas pela intenção de sua alma às visitas regulares, em que os visitantes passaram a relatar milagres atribuídos a ela, elevando-a a uma santa popular.
A capela cor-de-rosa foi o ponto de peregrinação de seus devotos nas primeiras décadas. Atualmente, o corpo se encontra em uma sepultura em que estão fixadas duas dezenas de placas de ‘graças alcançadas’.

Em visita ao local nesta segunda-feira (2), o blog notou a quantidade de vasinhos que pareciam ter sido depositados recentemente sobre o túmulo da ‘santinha de Marília’ nascida em Pompeia.
ANTONIO ‘CARLOS’ NASCIMENTO DA SILVA | O MENINO DO PIANO
14.08.1944 – 14.03.1963
Primogênito de uma família afeita ao apreço pelas artes, Antonio percebeu na tenra infância a familiaridade com os teclados. Ingressou no curso de piano e, aos sete, já se apresentava ao lado da irmã, que tinha quatro.

No conservatório, após experimentar a prática da música clássica, identificou-se com a popular, em que logo se tornaria “o menino dos dedos mágicos” em apresentações nos antigos programas de auditório do rádio em Marília.
Das matinês à Orquestra Feies Feres, Antonio Carlos, como passaria a ser chamado, se apresentaria ao lado de grandes nomes da música brasileira como Celly e Tony Campello, Cauby Peixoto e Ângela Maria.

Ele ainda era um adolescente quando ingressou na banda ‘Sentimental Boys’. Nesse período, cursou Contabilidade e, em 1962, ao completar 18 anos, já tinha habilitação para voar, com sonho de ingressar na Academia Militar das Agulhas Negras.
Em novembro daquele ano, Antonio Carlos foi acometido de forte febre, e retirou-se dos palcos para cuidar da saúde. Os exames apontaram água em seus pulmões e a recomendação à época era que fosse tratado em Campos do Jordão (SP).
O músico chegaria até São Paulo, onde ficaria hospitalizado. O sangue coagulava de modo a exigir várias transfusões. Um médico hematologista, percebendo a gravidade do quadro clínico, recomendou que ele voltasse para casa.
Antonio Carlos desejou ficar na casa dos avós maternos, em Vera Cruz (SP), onde um quarto foi preparado para que recebesse os cuidados paliativos. Em apenas quatro dias, a vida mudou de tom. O ‘Menino do Piano’ morreria, aos 18 anos.
Em sua homenagem, o pai pediu que se construísse um piano de mármore sobre seu túmulo. A homenagem chamou a atenção dos visitantes e, dentre eles, de pessoas que identificaram em Antonio Carlos um ‘intercessor’ para suas causas pessoais.

Poucos anos após sua morte, a sepultura começaria a receber, tais como partituras de pedra, agradecimentos por ‘graças recebidas’ encravadas, multiplicando o repertório artístico para a poesia e a arte sacra.
A composição da fé popular já havia acumulado mais de 40 manifestações de agradecimento ao ‘Menino do Piano’, conforme o blog verificou em visita no domingo (1), em que o sol ainda afinava o céu com seus raios sobre a sepultura.
GUARACY MARQUES PINTO | O ‘PÉ-DE-VELUDO’
25.11.1943 – 09.12.1964
Guaracy nasceu no lar das periferias de Marília. Negro e pobre, conheceu a fome ao lado dos quatro irmãos enquanto perambulava, de casa em casa, pelas precariedades da sobrevivência nas extremidades da cidade.
Apesar da necessidade do estudo, preferiu ocupar o tempo em busca de algum dinheiro para ajudar a numerosa família, enquanto se exibia aos colegas, equilibrando-se sobre os muros, segundo relatos de época.
A habilidade física acabaria por se tornar sua aliada na prática do crime. Nos anos 1960, a reincidência dos assaltos a residências em áreas nobres da cidade começara a intrigar a polícia por suas particularidades.

O gatuno não se contentava apenas em levar joias e dinheiro, mas começaram a chegar na delegacia relatos de bilhetes com elogios e críticas à comida deixada na cozinha e até sobre a beleza de uma mulher de um radialista.
A imprensa logo apelidou o larápio, dada sua capacidade silenciosa de furtar: Pé-de-Veludo. Era Guaracy que, com apoio dos irmãos, se tornaria o ladrão de casas mais procurado de Marília.
Nem tudo que ele roubava ficava para si e sua família. Na quebrada da época, era comum vê-lo distribuindo comida, brinquedos e até dinheiro para os outros pobres que moravam em seu entorno. Daí o segundo apelido: o ‘Robin Hood’ de Marília.
Àquela altura, a polícia já investigava a família. O delegado Ewerton Fleury Curado decidiu ir até a residência e descobriu um arsenal de armas. Nem conseguiu reagir: foi baleado e morto por Alcyr, irmão de Guaracy.
A polícia reagiu. Entre as 15h e as 18h30 de 9 de dezembro de 1964, houve intenso tiroteio. Sem que o bandido se entregasse, foram lançadas bombas de gás de cloro, que o matariam, sufocado, aos 21 anos.
Sob o novo regime imposto no país pelo golpe militar que havia ocorrido meses antes, as comunidades que conviviam com Guaracy reagiram ao massacre pelo silêncio das orações coletivas pela alma de Guaracy, no Cemitério da Saudade.
Aos poucos, a manifestação pacífica tornou-se uma devoção. No lugar do túmulo foi erigida uma capela em 1979, às custas de Terezinha Maia de Jesus. À época ela disse ter conseguido fazer o casamento da filha após pedido ao “ladrão que ajudava os pobres”.
A mulher seguiu cuidando do local até 2011, quando faleceu, aos 83 anos. Ela, que tanto cuidou da casa de um bandido morto, acabaria por perder a sua vida, em sua própria residência, após a invasão e as agressões de outro ladrão.
Nas paredes da capela ainda hoje estão as placas de agradecimento de ‘graças alcançadas’ – a última datada de 2020. Neste domingo (1), durante a visita do blog, havia velas acesas pela alma do Pé-de-Veludo.

‘SANTOS’ SEM ALTARES
Alçados a santos pela devoção popular, os três jovens milagreiros de Marília não são reconhecidos como tais pela Igreja Católica, ainda que qualquer graça atribuída a eles possa vir a ser objeto de eventual investigação.
O primeiro passo seria a formalização do pedido à Diocese de Marília, acompanhado de documentos e testemunhos que validem a associação da graça à suposta intervenção do ‘milagreiro’.
Ainda que o protocolo inicial avançasse, qualquer um dos três poderia ser barrado nos critérios exigidos pela Igreja aos candidatos a santo: ter reputação de santidade ou de martírio conhecida e sustentada por testemunhos confiáveis.
Iracema e o Menino do Piano não seriam reconhecidos como mártires em razão da defesa da fé cristã, tampouco Pé-de-Veludo, que teve uma conhecida vida pregressa no crime, sem que haja qualquer registro de arrependimento conhecido.
Canonizado pela Igreja Católica em 2025, o italiano Carlo Acutis, também morreu jovem – aos 15 anos, de leucemia, em 2006. Fiel praticante, ele teve histórico, testemunho e dois milagres atribuídos à sua intercessão.
Ainda que ausentes dos altares, pelos rigores da Igreja, os três jovens milagreiros de Marília seguem vivos na memória coletiva e nas intenções de seus devotos, vivos ou mortos, no Cemitério da Saudade.




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