MARÍLIA EM 97
- Rodrigo Viudes
- há 1 dia
- 5 min de leitura
Entre desfiles, memórias e repetição de ciclos, Marília expõe permanências e mudanças em quase três décadas de '4 de Abril'. Blog revisita cenas, números e personagens de uma cidade que continua a crescer enquanto sua história passa pela 'avenida da nostalgia'

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Em mais uma comemoração cívico militar na avenida Sampaio Vidal, Marília festejou seu aniversário com desfile acompanhado por autoridades, participantes de dezenas de instituições, forças de segurança e público em geral.
A presença inédita da banda marcial do Corpo de Fuzileiros Navais despertou atenção do público, assim como a apresentação da primeira “jardineira” a serviço do transporte rodoviário intermunicipal na cidade, símbolo de um tempo em que deslocar-se também era parte do espetáculo.
É noventa e sete.

O número acompanha a cidade em diferentes dimensões: no tempo que se acumula, nos ciclos políticos que se repetem, na expansão urbana que insiste em avançar pelas bordas e na vocação de polo regional que se mantém.
Entre decisões administrativas, hábitos cotidianos e transformações graduais, Marília segue reafirmando sua posição de referência, ainda que nem sempre consiga romper com padrões já conhecidos.
SOB MESMA DIREÇÃO
Há, no entanto, algo de familiar nesse cenário. Entre o desfile que se repete e os nomes que retornam, no crescimento urbano e nos velhos gargalos, a cidade parece caminhar em espiral, não em linha reta.
Sob a gestão de Camarinha, a cidade inicia o ano com ajustes administrativos como a modificação de dispositivos referentes à constituição da Codemar e a concessão de descontos na cobrança do IPTU, numa tentativa de equilibrar as contas e estimular o contribuinte.
No comércio, a ACIM ensaia as primeiras campanhas do ano, mirando o fortalecimento das vendas no centro. A rua São Luiz, com maior espaço destinado ao fluxo de pedestres, torna-se vitrine dessa estratégia.
Em dia de feriado, a população mantém hábitos que atravessam décadas: passeios no bosque municipal Rangel Pietraroia, visitas ao shopping ou encontros em clubes da cidade. O cotidiano segue seu curso de sempre.
SEMELHANÇAS
Passadas quase três décadas, as semelhanças seguem mesmo padrão em Marília. A cidade voltou a ser administrada por um Camarinha — em 1997, Abelardo iniciava seu segundo mandato; agora, o comando está com o filho, Vinicius.
Na Câmara Municipal, apesar da redução do número de cadeiras - de 21 para as atuais 17 -, a subserviência legislativa ao prefeito da vez - no caso, da mesma família - continua em igual proporção de interesses políticos e partidários.
A expansão urbana continua a avançar pelas bordas, impulsionada por residenciais fechados e grandes conjuntos populares, com o mercado imobiliário ditando o ritmo da ocupação, frequentemente à frente do planejamento previsto em lei.

O Plano Diretor, embora existente, mantém caráter reativo. O planejamento urbano segue mais adaptativo do que estratégico, respondendo às demandas conforme elas surgem, e não antecipando cenários.
No futebol, o Marília Atlético Clube permanece distante da elite estadual. Se em 1997 - e nos dois anos seguintes - disputava a Série B1-A (atual A4), agora insiste em permanecer na A3.
TRLHOS, AVENIDAS E VITRINE
Se as semelhanças revelam permanências, as diferenças expõem a dimensão do tempo. Em 1997, Marília tinha 165.733 habitantes. Hoje, são 247.348. Um crescimento de cerca de um terço da população em quase 30 anos, com impactos diretos na mobilidade, na habitação e na infraestrutura urbana.
No transporte aéreo, a cidade mantém a lógica de operação única — antes com a TAM (atual Latam) e aeronaves Fokker 100, hoje com a Azul e aviões ATR. A diferença está na perda de conexão direta com Congonhas, reduzindo a integração com a capital.
O transporte ferroviário, ainda presente em 1997 nos últimos dias da Fepasa (1971-1998), desapareceu. Incorporado posteriormente à Rede Ferroviária Federal (1957-1999) e operado até 2001, o serviço deixou de existir, eliminando uma alternativa de deslocamento que fazia parte da rotina local.
No transporte rodoviário, a antiga rodoviária da rua 24 de Dezembro, utilizada até 2003, deu lugar ao terminal atual. O prédio antigo, hoje abandonado, permanece como símbolo de uma infraestrutura que perdeu função.
No transporte coletivo urbano, a antiga Empresa Circular de Marília deu lugar a um sistema operado por duas concessionárias. A mudança não eliminou desafios históricos, como cobertura, qualidade e custo do serviço.
A paisagem urbana também se transformou. O viaduto sobre a linha férrea na avenida Sampaio Vidal, que conectava vias importantes, foi implodido em 2002, alterando a dinâmica viária da região central.

Na economia, a indústria alimentícia segue como base, mas o setor de serviços ganhou protagonismo, especialmente com o surgimento de empresas de tecnologia como OnClick (2001) e Tray (2003).
No comércio, o cenário é de substituição: lojas tradicionais deram lugar a novas operações ou fecharam as portas, enquanto os shoppings se consolidaram como centros de consumo.
Em 1997, o consumidor ainda poderia comprar seus calçados na Oriental (até 2016), utensílios domésticos na Casa Formosa (até 2021), itens natalinos na Paraíso dos Enfeites (até 2024) ou ainda no shopping Alto Cafezal (até 2007) e na Galeria Atenas (até 2025).
Atualmente, ainda em ritmo de encolhimento do número de lojas em seus principais corredores comerciais centrais devido a concorrência do mercado digital, o mariliense conta com dois shoppings – Marília (desde 2000) e Esmeralda (2004) – com possibilidade de um terceiro, o Boulevard, em construção.
Entre as figuras marcantes da cidade naquele ano, destaca-se a aposentada Encarnação Olivas Garcia Pacheco, a 'Vó Nena', que entrou para o Guinness Book como a pessoa mais velha a saltar de paraquedas no mundo, em abril de 1992, aos 81 anos. Ela faleceria em 2013, aos 102 anos.
NO DESFILE DO TEMPO
De volta à avenida Sampaio Vidal, o desfile da manhã deste sábado (4), de comemoração dos 97 anos de Marília, continua a dialogar com as formalidades das últimas décadas.
Ainda assim, algo permanece. Entre palanques, discursos e passos cadenciados, Marília continua a desfilar — não apenas na avenida, mas na própria história.
Na contagem regressiva do centenário, a cidade parece menos preocupada em mudar de rumo e mais inclinada a reafirmar seus ciclos, como se o tempo, por aqui, avançasse sem jamais deixar completamente o lugar de onde partiu.
Ainda que mantenha a liturgia cívica da cidade, o desfile segue o fluxo das despedidas - das grandes bandas marciais de outrora à 'voz oficial', que por décadas anunciou a cidade que atravessou por si mesma.
Este texto é dedicado à memoria do jornalista e apresentador, José Henrique Travassos de Brito, o Zé Henrique, morto em 2025, aos 61 anos.



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