MARÍLIA SEM DRENAGEM
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MARÍLIA SEM DRENAGEM

Retorno das chuvas a Marília expõe décadas de expansão habitacional e industrial sem aporte de infraestrutura em dois dos principais corredores de pessoas e negócios nas zonas norte e sul da cidade. Saiba qual é a previsão da Prefeitura de Marília para a Durval de Menezes e a Yusaburo Sasazaki


Avenida Durval de Menezes, na zona sul, e rua Yusaburo Sasazaki, na norte, vivem dilemas de infraestrutura
Avenida Durval de Menezes, na zona sul, e rua Yusaburo Sasazaki, na norte, vivem dilemas de infraestrutura

A passagem de uma frente fria acompanhada por fortes chuvas com incidência de raios, granizo e ventania voltou a encharcar Marília. Pelo menos 95,2 milímetros desabaram do céu desde quinta-feira (23), segundo o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet).

As águas se acumularam em diversos pontos da cidade, com reincidência histórica principalmente onde os eventos climáticos têm convivido há décadas com semelhante imprevisibilidade de precipitação e de ações da administração municipal.

Esse acúmulo de intempéries se traduz em inundações e precariedades de infraestrutura urbana, tanto na avenida Durval de Menezes, no bairro Nova Marília, quanto na rua Yusaburo Sasazaki, no Distrito Industrial, nas zonas sul e norte da cidade.

Neste texto, o blog explica como a falta de previsibilidade na gestão da expansão habitacional e industrial da cidade gerou calamidades evitáveis de mobilidade urbana e por que as nuvens de solução ainda sobrevoam o governo atual.

 

VIA DE INUNDAÇÃO

Antiga estrada municipal para a vizinha Ocauçu, a Durval de Menezes já nasceu como avenida, em 1989, pouco mais de um ano após a morte do homenageado, o primeiro prefeito da história de Marília (1929-1930).

À época, demarcava um dos limites da zona sul, encostada por dezenas das 3 mil casas do bairro Nova Marília, então o maior da cidade, inaugurado em 1983 pelo primeiro prefeito mariliense, Theobaldo de Oliveira Lyrio (1932-2024).
Nova Marília foi entregue em 1983 com ruas sem asfalto; na imagem, a avenida João Ramalho
Nova Marília foi entregue em 1983 com ruas sem asfalto; na imagem, a avenida João Ramalho

O conjunto habitacional foi entregue com ruas de terra crua. “Não há registro de que a Cohab Bauru tenha assumido contratualmente a obrigação de entregar infraestrutura complementar junto com as unidades habitacionais”, informou a companhia ao blog.

As obras de pavimentação começaram com Theobaldo e continuaram com seu sucessor, Abelardo Camarinha (PMDB [atual MDB]), na primeira das suas três gestões municipais, entre 1983 e 1989.

O asfalto chegaria às dezenas de ruas e avenidas, mas a rede de drenagem pluvial, não. A ausência de bocas de lobo demandaria a apresentação de 23 requerimentos e 33 indicações por dezenas de vereadores entre 1998 e 2025 na Câmara Municipal de Marília.



Entre eles, pai e filho – Luiz Sérgio Coneglian (1952-2022), o Luizão do Açougue, peticionário em 2005, e Luis Antonio Coneglian, o Chico do Açougue (Avante), em 2025 – cujo comércio fica a uma quadra do ponto mais crítico da Durval de Menezes.

Sem ter para onde escoar, as águas das chuvas se acumulam em todo o pavimento e invadem as lojas em ambos os lados de uma faixa de pedestre elevada instalada em frente ao Supermercado São Francisco.
A antiga rotina da Durval de Menzes em dia de chuva: alagamento e invasão de água nas lojas
A antiga rotina da Durval de Menzes em dia de chuva: alagamento e invasão de água nas lojas

Além do prejuízo recorrente aos comerciantes, as inundações impedem a passagem dos pedestres e do fluxo do trânsito para quem precisa ir e vir por uma das principais vias arteriais da zona sul de Marília.

 

DISTRITO DO LAMAÇAL

Quando a Durval de Menezes ainda era uma estrada de chão, parte da Fazenda Santa Antonieta que margeava a ferrovia era atravessada por uma via em iguais condições para permitir o acesso ao então longínquo distrito de Padre Nóbrega.

Naqueles anos de 1970, Marília também avançava seus bairros na zona norte e, na esteira do Milagre Econômico Brasileiro (1967-1973), passou a conceder suas áreas para a instalação de distritos industriais.

Depois do primeiro, ao lado da estrada Marília-Porto Ferrão (atual SP-333), em 1970; do segundo, no distrito de Lácio, em 1989, foi instalado o terceiro e último, em 1996, na faixa de terra lateral à ferrovia entre o Santa Antonieta e Padre Nóbrega.



Aprovado em 1996, no final do governo de Salomão Aukar (1931-2019), o Distrito Industrial III seria rasgado ao meio por uma nova via, denominada ainda naquele ano como Yusaburo Sasazaki, cofundador da fábrica de esquadrias fundada na cidade em 1943.


Nome de rua homenageia cofundador de fábrica de esquadrias fundada em Marília, sem lote por ali
Nome de rua homenageia cofundador de fábrica de esquadrias fundada em Marília, sem lote por ali

A doação dos lotes demandaria legislação específica, sancionada em 1996, em que as empresas beneficiadas se ocupariam de investir em todas as “despesas decorrentes da implantação de infraestrutura básica necessária”.

Ou seja, ainda de acordo com a lei, a “rede distribuidora de água potável com interligações, rede coletora de esgotos sanitários e ligações, rede distribuidora de energia elétrica e iluminação pública, galerias de águas pluviais e pavimentação asfáltica”.
Poça descansa após mais uma chuva na via sem infraestrutura em frente à sede da RIC Ambiental
Poça descansa após mais uma chuva na via sem infraestrutura em frente à sede da RIC Ambiental

Batizado de Distrito Industrial Santo Barion – pioneiro da cidade e fundador da extinta Ailiram, que criou a bala ‘7 Belo’, à venda até hoje pela Arcor, da Argentina –, o terceiro distrito industrial seria fatiado a partir de 1997.

Desde então, dezenas de empresas seriam beneficiadas com uma ou mais áreas doadas pela Prefeitura de Marília, ampliando o parque industrial naquela região da cidade em diversos segmentos da indústria.

No entanto, o turnover de ocupação das fábricas ao longo das décadas acabou por deixar a rua Yusaburo Sasazaki à própria sorte enquanto os empresários se ocuparam de prover a infraestrutura de seus próprios negócios.


Sem infraestrutura, rua Yasaburo Sasazaki convive com lamaçal a cada chuva que desaba em Marília
Sem infraestrutura, rua Yasaburo Sasazaki convive com lamaçal a cada chuva que desaba em Marília

Essa prioridade ao interesse privado em detrimento da obrigação do dever legal com o bem público acabou por gerar situações como o parcelamento da pavimentação asfáltica em uma via que continua de chão batido em quase toda sua extensão de 2,3 quilômetros após três décadas de sua criação.

Ainda que continuasse em condições precárias para o tráfego de veículos leves e pesados da indústria, a Yusaburo Sasazaki entrou no fluxo da expansão imobiliária daquela região da cidade a partir de 2010.

Por ali foi confinado o acesso aos loteadores do Terra Verde e, desde 2021, aos moradores das mais de 600 casas do bairro Terras de São Paulo – e com previsão de agravamento do gargalo de mobilidade urbana com a futura inauguração de mais moradias.


Empreendimentos foram instalados com acesso pela Yusaburo Sasazaki, apesar da falta de infraestrutura
Empreendimentos foram instalados com acesso pela Yusaburo Sasazaki, apesar da falta de infraestrutura

Indignados com a rotina de poeira, lamaçal e acidentes na via industrial, moradores passaram a relatar a própria rotina nas redes sociais a partir de dezembro de 2025 com a abertura de uma conta própria no Instagram, o ‘Alô Prefeito de Marília’ [acesse aqui].

“Após criar a página, gravei um vídeo mostrando a situação e a repercussão foi muito grande, chegando a mais de 113 mil visualizações. Foi aí que percebi um movimento antigo dos moradores”, afirmou o criador do perfil, Alex Abatti.

A mobilização dos moradores gerou uma representação no Ministério Público do Estado de São Paulo (MP-SP), protocolada em março deste ano “em busca de uma solução pelos caminhos legais”, conforme consta em texto publicado no perfil.

 

PREVISÃO DE SOLUÇÕES?

Apenas dois meses depois, a iniciativa popular seria convertida em lei, sancionada pelo prefeito Vinicius Camarinha (PSDB). O procedimento do MP-SP foi citado e, de fato, decisivo à providência do município.

Na lei, o governo municipal reformou a redação, atribuindo a si mesma todas as obrigações com a implantação de infraestrutura necessária, mas com as custas mantidas às empresas, a serem pagas em 60 parcelas mensais.

Na prática, a Prefeitura de Marília corrige a devida competência na execução da benfeitoria pública relegada à iniciativa privada. Dois meses após a sanção, agora é a lei que trafega pela burocracia enquanto a Yusaburo Sasazaki não para.


Yusaburo Sasazaki tem vários lotes sem ocupação por empresas após doação pela Prefeitura de Marília
Yusaburo Sasazaki tem vários lotes sem ocupação por empresas após doação pela Prefeitura de Marília

Procurada pelo blog, o município informou que “os projetos de pavimentação e drenagem seguem em fase de elaboração técnica. Por este motivo, ainda não há previsão para início das obras”, informou.

A previsão é menos nebulosa quanto às futuras providências para sanar as inundações da avenida Durval de Menezes. A Prefeitura informou ter solicitado recursos ao Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional.

“O investimento total previsto para as obras é de R$ 4.553.965,18, dividido entre duas fases: R$ 2.751.158,67 na Fase 1 e R$ 1.802.806,51 na Fase 2”, explicou. “Atualmente, as propostas encontram-se em análise técnica”.



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