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MORTE (AINDA) SEM RESPOSTA

ANÁLISE: Um ano após falecimento de Josi Dias na UPA Norte de Marília, laudos, vídeos e versões oficiais seguem em choque enquanto o inquérito policial permanece aberto após sucessivos pedidos de prazo


Josi Dias (1983-2025) morreu na UPA da zona norte após 57 de atendimento | Foto: Redes sociais
Josi Dias (1983-2025) morreu na UPA da zona norte após 57 de atendimento | Foto: Redes sociais

Na última sexta-feira (9), completou-se um ano da morte da servidora pública municipal Josiane Gomes Pelegrin Dias, aos 41 anos, ocorrida dentro da Unidade de Pronto Atendimento (UPA) da zona norte de Marília.

Passados pouco mais de 12 meses, o caso segue sem conclusão policial, cercado por contradições documentais, versões conflitantes e uma investigação marcada por reiteradas dilações de prazo, o que mantém dúvidas sobre a real causa da morte.

 

VERSÕES E VÍDEOS

Josi Dias deu entrada na UPA na noite de 7 de janeiro de 2025, com queixas compatíveis com dor torácica, dispneia (falta de ar) e síncope (perda súbita de consciência). Ela permaneceu na unidade por mais de 50 horas, até morrer na madrugada do dia 9.

O óbito foi registrado oficialmente como decorrente de insuficiência respiratória aguda por broncoaspiração, associada à obesidade. Desde o início, porém, a família contesta a versão documental.

Vídeos gravados pela própria paciente e imagens do circuito interno da UPA mostram Josi Dias isolada, caída no chão, sem estar acomodada em leito convencional. Em um dos registros, ela aparece agonizando dentro de uma sala de isolamento.



O boletim de ocorrência aponta suspeita de suposta negligência médica, omissão de socorro e até falsidade documental – o que ainda demanda investigações aprofundadas para eventual comprovação.

 

EXUMAÇÃO E LAUDOS

A Justiça de Marília autorizou a exumação do corpo em fevereiro de 2025, diante da suspeita de que um possível infarto não teria sido considerado durante o atendimento na UPA da zona norte.

Apesar da ordem judicial prever urgência, o procedimento só foi realizado 44 dias depois, em 22 de março, no Cemitério Municipal de Pirajuí. A demora se tornaria, mais tarde, um dos principais argumentos da defesa da UPA, segundo apurou o blog.

O exame anatomopatológico, realizado a partir de fragmentos do coração, fígado e pulmão, favoreceu o diagnóstico de isquemia miocárdica aguda, indicando alterações compatíveis com infarto, além de edema pulmonar.

O resultado apresentado pelo Instituto Médico Legal (IML) contraria diretamente a causa da morte registrada inicialmente. A ABHU, por sua vez, sustenta que não houve erro médico no atendimento a Josi Dias.

 

VERSÃO DA ABHU

Segundo parecer técnico anexado ao inquérito, a que o blog teve acesso, a ABHU argumenta que o intervalo de 73 dias entre o óbito e a coleta do material comprometeria qualquer análise histológica confiável, devido ao avançado estado de decomposição do corpo.

A instituição afirma que protocolos para dor torácica foram seguidos, que exames descartaram infarto e que a paciente manteve sinais vitais estáveis até poucos minutos antes da parada cardiorrespiratória.
UPA da zona norte declarou morte de Josi Dias às 4h10 da madrugada de 9 de janeiro de 2025
UPA da zona norte declarou morte de Josi Dias às 4h10 da madrugada de 9 de janeiro de 2025

Segundo a própria versão da ABHU, às 3h10 da madrugada os sinais vitais de Josi estariam normais. Vinte minutos depois, às 3h30, ela foi encontrada com “cianose labial, rebaixamento do nível de consciência e dispneia severa”.

O médico plantonista supôs a ocorrência de broncoaspiração – no caso, entrada acidental de vômito das vias respiratórias – ao comunicar o óbito à família, ainda na madrugada da morte de Josi Dias, em 9 de janeiro de 2025.

 

PACIENTE DESACOMPANHADA

Josi Dias estava sozinha, isolada em um ambiente sem monitoramento contínuo visível nos registros. Ela havia chegado à UPA acompanhada da filha, foi visitada pelo ex-marido três vezes, mas ficou a maior parte do tempo sem ninguém ao lado.

Especialistas ouvidos pelo blog apontam que a ausência de acompanhante pode ter retardado a identificação de um evento agudo, como vômito ou engasgo, situação em que a intervenção precoce costuma ser decisiva.

Ao blog, a diretora superintendente da ABHU, Márcia Mesquita Serva Reis, questionou a ausência da permanência de alguém ao lado de Josi Dias durante o atendimento. “Não dá para ficar sozinho. Isso é complicado”, afirmou.


Superintendente da ABHU, Márcia Reis, questionou falta de companhia a Josi Dias na UPA | Foto: Unimar
Superintendente da ABHU, Márcia Reis, questionou falta de companhia a Josi Dias na UPA | Foto: Unimar

A dirigente ressaltou não haver funcionários suficientes para acompanhar todos os pacientes que buscam atendimento na UPA – seja da zona norte, ou da sul –, sobretudo pela frequente lotação durante as 24 horas.

 

INQUÉRITO PRORROGADO

Enquanto versões médicas, vídeos, boletim de ocorrência e laudos oficiais se confrontam, o inquérito policial segue inconcluso. Desde março de 2025, o delegado responsável solicitou oito pedidos de dilação de prazo citando falta de laudos e cartas precatórias pendentes.

Em uma das certidões, a própria Polícia Civil reconheceu que diligências deixaram de ser feitas por sobrecarga de trabalho. O Código de Processo Penal (CPP) permite que a autoridade policial recorra a mais prazo, desde que o Ministério Público (MP) seja ouvido – conforme tem ocorrido neste caso.
Polícia Civil ainda não concluiu inquérito que investida morte de Josi Dias na UPA da zona norte
Polícia Civil ainda não concluiu inquérito que investida morte de Josi Dias na UPA da zona norte

Um ano depois, a morte de Josi Dias permanece como um caso emblemático de como a demora investigativa, somada a falhas de comunicação institucional e versões conflitantes, pode prolongar o sofrimento de uma família e manter sem resposta uma pergunta essencial: Josi Dias poderia ter sido salva?

Enquanto o inquérito não é encerrado, a resposta segue soterrada entre papéis, prazos estendidos e um corpo que precisou ser exumado para tentar esclarecer o que deveria ter sido compreendido ainda em vida.



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