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NEM PAI, NEM FILHO

Atualizado: há 3 horas

Abelardo e Vinicius ficam fora das urnas pela primeira vez desde 2004. Inelegível, patriarca pode ter que esperar até 2030 para voltar a ser candidato. Herdeiro político, prefeito já trabalha com eventual “plano B” para 2028. Família Camarinha está nos poderes políticos de Marília há 58 dos 97 anos da cidade


O filho, Vinicius Camarinha (PSDB), e o pai, Abelardo Camarinha (Podemos): ambos não estarão nas urnas
O filho, Vinicius Camarinha (PSDB), e o pai, Abelardo Camarinha (Podemos): ambos não estarão nas urnas

Pela primeira vez em 22 anos, o eleitorado mariliense não terá o sobrenome Camarinha a quem votar nas eleições de outubro. Nem pai, nem filho e, por último, a madrasta terão seus rostos e números estampados na urna eletrônica.

Inelegível até maio de 2027, Abelardo (Podemos) terá que esperar para se candidatar outra vez. Herdeiro político, Vinicius (PSDB) exerce mandato de prefeito de Marília e a vereadora Fabiana (Podemos) desistiu de concorrer a deputada estadual.

Neste post, o blog analisa os motivos da lacuna dos Camarinhas nas urnas, a estratégia política de Vinicius para conduzir sua carreira nas próximas eleições e o histórico do clã Camarinha na política local – superior a metade da idade quase centenária de Marília.



HISTÓRICO DE PAI E FILHO

Abelardo e Vinicius passaram a dividir o protagonismo político a partir de 2002. O pai, então prefeito reeleito de Marília com votação histórica de 64.318 votos apresentava o filho, que se elegeria deputado estadual aos 22 anos, pelo PSB.

Em 2004, ambos haviam estado fora das urnas pela última vez. Abelardo (PMDB, atual MDB) encerrava seu mandato de prefeito, enquanto Vinicius chegava à metade de sua legislatura na Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp).

Abelardo e Vinicius disputariam e ganhariam juntos, em 2006 e 2010, para deputado federal e estadual, respectivamente, no tempo em que ambos ainda faziam dobradinha ‘de pai e filho’ na campanha eleitoral.  


Vinicius e Abelardo, reeleitos como deputados, com diplomas na mão, ao lado de Maria Paula | Foto: Alesp
Vinicius e Abelardo, reeleitos como deputados, com diplomas na mão, ao lado de Maria Paula | Foto: Alesp

Em 2008, Vinicius perdeu em sua primeira tentativa à Prefeitura de Marília. Quatro anos depois, venceu. Em 2014, Abelardo retornou à Alesp enquanto Vinicius acabaria reprovado em sua tentativa de reeleição nas urnas municipais de 2016.

Dois anos depois, Vinicius retornaria à Alesp, mas o pai não conseguiria o mesmo: inelegível, ficou fora da disputa pela Prefeitura de Marília. Não pôde nem votar em si. Todos os seus 35.006 votos foram anulados.

Nas últimas duas eleições, só Vinicius apareceu nas urnas – e ganhou, registrando suas maiores votações pessoais em diferentes cargos: em 2022, para deputado estadual, pela 5ª vez, com 123.316 votos, e em 2024, para Prefeitura de Marília, com 62.050 votos.


 

DINASTIA CAMARINHA

Quando lançou o filho a deputado estadual, em 2002, Abelardo já havia construído uma carreira política sólida de décadas. Antes de incluir o filho na vida pública, ele já havia recebido o bastão passado pelo pai.

Eleito vereador em 1968, Josué Camarinha (1924-2006) seria reeleito em 1972, mas renunciaria ao cargo, em 1975, dois anos antes de Abelardo ocupar sua cadeira na Câmara Municipal, também pela Arena.

De parlamentar, Abelardo ascendeu a prefeito de Marília, em 1982, já filiado ao PMDB (atual MDB), e ficaria no cargo até 1988 – sim, por seis anos, conforme estabelecido à época, até a promulgação da Constituição, naquele ano.


Governador Franco Montoro ao lado do então prefeito Abelardo, em 1983 | Foto: Redes sociais
Governador Franco Montoro ao lado do então prefeito Abelardo, em 1983 | Foto: Redes sociais

Ausente nas urnas de 1986, enquanto administrava a cidade, Abelardo elegeu-se deputado estadual em 1990. Ele tentaria retornar à Prefeitura dois anos depois, mas conheceria sua primeira derrota para Salomão Aukar (1931-2019).

Reeleito deputado estadual em 1994, Abelardo disputaria a Prefeitura de novo em 1996, e ganharia. Dois anos depois, ele não apareceria de novo nas urnas pelo mesmo motivo de 1986: estava à frente do Executivo em Marília.

No terceiro mandato de prefeito, iniciado em 2000, ele passaria a ter um Camarinha para chamar de seu no Legislativo: Marcos, o sobrinho, que se reelegeria em 2004, novamente pelo extinto PPS (atual Cidadania).



Impedido judicialmente de se candidatar desde 2020, Abelardo, já filiado ao Podemos, lançou a esposa Fabiana como candidata a vereadora em 2024. Ela não apenas venceu como cravou votação histórica: 4.281 votos.

Em março deste ano, Abelardo dobrou a aposta legislativa: anunciou Fabiana como pré-candidata a deputada estadual. No último dia 18, quando já estava como candidata, a vereadora anunciou sua desistência à disputa.

Ainda que volte a ficar apto para retornar às urnas após cumprir a pena que termina em maio de 2027, Abelardo só poderá concorrer, em 2028, se viesse a se candidatar ao cargo de vereador.


Abelardo terá que esperar até 2030 para disputar cargo de deputado estadual outra vez | Foto: Alesp
Abelardo terá que esperar até 2030 para disputar cargo de deputado estadual outra vez | Foto: Alesp

Pela legislação vigente, o pai poderia cumprir o mandato legislativo, ainda que o filho seja candidato à reeleição à chefia do Executivo. Não havendo interesse pelas próximas eleições municipais, restaria a Abelardo, retornar às urnas de 2030.

 

A ESTRATÉGIA DE VINÍCIUS

Um dos motivos alegados por Fabiana para a desistência da candidatura a deputada estadual foi a escolha do enteado e prefeito Vinicius ao próprio vice, Rogerinho (PP), a quem ela também declarou "boa sorte" na campanha.

O recuo da madrasta acabaria por retirar o único sobrenome Camarinha nas urnas de 2026, uma vez que candidatura havia sido registrada regularmente pelo Podemos, restando apenas o deferimento pela Justiça Eleitoral.

A opção de Vinicius não é por acaso. Ao preferir o vice, ele apenas cumpre acordos políticos, sabendo, por experiência própria, da dificuldade de se viabilizar um nome confirmado apenas três meses antes das eleições.


Vinicius formalizou apoio ao vice Rogerinho ciente do rumo provável das urnas | Foto: Divulgação
Vinicius formalizou apoio ao vice Rogerinho ciente do rumo provável das urnas | Foto: Divulgação

Na prática, Vinícius lança Rogerinho em um cenário pulverizado de candidaturas locais, com o exclusivo objetivo de fragmentar votos para não eleger ninguém – inclusive, a única da cidade na Alesp, a deputada Dani Alonso (PL), sua adversária política.

A visão de Vinicius é a médio prazo, e privilegia sua própria carreira política. A eventual ausência de representatividade de Marília na assembleia estadual após as urnas de outubro é conveniente ao agora prefeito de Marília.

A ideia é simples: na hipótese, hoje remota, de uma nova derrota na tentativa de reeleição à Prefeitura de Marília, bastaria a Vinicius recolocar-se como opção a deputado para Marília e região em 2030, com argumentação messiânica semelhante àquela que o devolveu ao Paço Municipal da Sampaio Vidal.



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