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  • Rodrigo Viudes

o pecado dos padres

Atualizado: 1 de Jan de 2019

O que realmente revela a denúncia anônima que escandalizou, mais uma vez, a Diocese de Marília diante de seus fiéis e da opinião pública




Padre celebra missa: denúncias apontam supostos crimes que alguns sacerdotes têm cometido na Diocese de Marília

Ainda ecoam pelos canais de comunicação digital e, tão rápido quanto, nas rodas de conversa eclesiásticas ou não, uma série de denúncias contra alguns padres da Diocese de Marília. As acusações são graves e, se provadas, podem se tornar o maior escândalo da história da Igreja Católica na região.

As supostas revelações estão em uma carta de dez páginas intitulada 'Aos Meios de Comunicação de Marília e Região', de autoria anônima - ou apócrifa, como defendem alguns - distribuída pelo menos desde o primeiro semestre deste ano, e que se tornou conhecida do público geral agora.

Este blog também recebeu uma cópia. E não vai disponibilizá-la, tampouco citar os nomes de todos os envolvidos, até que as informações estejam checadas e confirmadas. Não se trata de censura ou proteção. Aqui, não. Pelo contrário: o interesse é pela Verdade.



Acusados de vários tipos de crimes, sete padres estariam sob investigação do bispo diocesano que, por sua vez, também foi citado pelas denúncias anônimas


AS ACUSAÇÕES

Sete padres são citados nominalmente nas cartas. A eles são imputados pecados que vão desde a inobservância de seus votos religiosos de ordem moral (relações sexuais homo e heteroafetivas, assédio, entre outros) a desvios de recursos de paróquias e até ameaças de morte.

Um deles, ainda segundo a carta, teria sofrido extorsões após aparecer nu em uma página de bate-papo digital. Outro caso, também citado no documento anônimo, beira o tragicômico: um padre teria passado a namorar o coveiro do cemitério onde o seu namorado foi sepultado.

Do início ao fim da carta, entre uma denúncia e outra, o(s) autor(es) questiona(m) a postura do bispo de Marília, dom Luiz Antonio Cipolini, sobretudo por sua suposta omissão (aos fatos relatados) e ameaças a fieis (que o teriam procurado para denunciar pelo menos um dos padres).


RESPOSTAS DA CÚRIA

A Cúria respondeu apenas em 5 de novembro em nota "ao clero e aos fiéis da Diocese de Marília". E não foi o bispo que a assinou. Antes, manifestaram-se os membros do Colégio de Consultores, em defesa da gestão do episcopado local. Quanto à carta, argumentaram que "a Igreja não pode atuar a partir de denúncias anônimas".

O bispo se manifestou apenas oito dias depois. Ele reafirmou o anonimato das acusações e informou que "os fatos apresentados e devidamente assinados já estão sendo averiguados há algum tempo através de uma série de investigações e apurações sigilosas, como coleta de provas e testemunhos".

Finaliza o bispo: "É necessário tempo para que tudo seja esclarecido com justiça e imparcialidade a fim de a Igreja Particular de Marília, pautada no conhecimento da verdade (Cf. Jo 8,32) esteja cada vez mais unida com seu clero e seus fieis na instauração do Reino da paz no Centro-Oeste Paulista".


A REALIDADE

Resta saber a que ritmo a igreja conduzirá as investigações que divulgou estar fazendo para que se alcance a verdade que pretende conhecer - ou, talvez, já saiba em parte. E não há o que garanta, pelo menos por ora, uma apuração isenta dos fatos, já que o próprio bispo foi citado.

Como qualquer outra instituição humana, a Igreja Católica também é corporativista. Não raro, processos eclesiásticos terminam com a transferência do acusado para outra paróquia. Para alguns, é uma premiação para continuar a delinquir em outro lugar. Que o digam os padres pedófilos, por exemplo.

É por isso que casos de ameaças, extorsões e desvios de recursos, uma vez que municiados de provas suficientes - e não somente por uma carta anônima -, precisam ser encaminhados a uma delegacia de polícia e seguir seu curso na Justiça Comum. É assunto para Código Penal, não apenas Canônico.

O direito é o mesmo aos cléricos que, conscientes da inocência, devem fazer valer seus direitos legais em proteção à honra, seja quando acusados de desvios de conduta e crimes que não cometeram, ou diante de assédios e ameaças recebidos muitas vezes no seio da própria igreja.



Padre caminha sozinho nas ruas de Roma: como anda a reputação do sacerdote de sua paróquia?


INDAGAÇÕES

O anonimato da carta pode ser tanto uma atitude covarde, leviana, ou um grito diante dos supostos fatos relatados e o risco iminente de algum tipo de retaliação, seja de quem for, dada a gravidade do conteúdo. Por isso, o encaminhamento 'aos meios de comunicação'.

Afinal, a quem interessam as supostas denúncias? Quais são os seus autores? Por que as acusações não foram encaminhadas também ao Poder Judiciário, com as devidas provas? Quem denuncia tem medo de quê ou de quem? As pessoas citadas estariam dispostas a confirmar tudo perante a Justiça?

E os padres acusados: como ficam em relação às suas comunidades? Como eles podem alegar inocência diante da exposição de fatos e fotos, mesmo que ainda não comprovados? E a Diocese de Marília: vai conseguir responder rápida e honestamente à sociedade diante deste episódio?


SINAL DE ALERTA

Verdadeiras ou não, as acusações expõem a igreja como ela é: humana, pecadora, falível. Enquanto as investigações correm - não apenas pela Cúria - cada um dos atores deste episódio - bispo, padres e comunidades - vão cumprir seus papeis, como de costume, no santo rito da rotina.

Cabe aos fiéis, tais quais como cidadãos da fé, acompanhar os desdobramentos deste caso e se importar ainda mais pelos rumos, os custos e a administração de suas paróquias. A propósito: sua igreja divulga balancetes regularmente? Há registro do uso do dízimo entregue à igreja? Verifique.

Acusações como as que chegaram através das denúncias revelam como a subserviência a que podem se submeter os Conselhos de Assuntos Econômicos Paroquiais (CAEPs) e Pastorais Paroquiais (CPP) aos seus respectivos padres pode abrir brechas para desvios de condutas e recursos.

Aliás, é justamente onde ninguém vê - ou pelo menos não acusa, por omissão ou cumplicidade - que se sustentam as tais acusações contra os padres. As denúncias expõem, por exemplo, como é possível fazer das casas paroquiais tanto um ambiente de respeito quanto de prostituição.

Pior ainda: como toda uma diocese pode, sim, rasgar sua credibilidade se submetida aos caprichos de um bispo e um grupeto de sacerdotes, comprometidos entre si. É de se esperar que uma carta anônima não tenha sido o estopim de um escândalo que só dependia do tempo para acontecer. A se aguardar.


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