O ÚLTIMO PÃO
- Rodrigo Viudes
- há 2 dias
- 4 min de leitura
Atualizado: há 1 dia
Fornada derradeira de ponto supermercadista histórico interrompe vínculos empregatícios e de convivência de décadas com clientela da elite de Marília. Fim de expediente encerra carreira de comerciário mais antigo em atividade na cidade. Área nobre adquirida por concorrente fermenta especulações de futuro. Hoje não tem Pão de Açúcar

O café posto à mesa atrasou mais do que o usual na última sexta-feira (31) em algumas das casas onde o sabor da economia da cidade costuma ser saboreado mais cedo por privilegiada presença na fila do pão.
A demora tinha um motivo capital: a elite de Marilia perdia sua padaria de convivências em ponto valorizado e histórico do varejo central. Fechava suas portas a loja Premium do Grupo Pão de Açúcar na cidade.
A fornada derradeira de expediente do supermercado, fermentada com entrevistas com clientes, ex-funcionários e fontes do mercado imobiliário, pode ser saboreada no blog, neste primeiro domingo sem pão, nem açúcar, da rua Bandeirantes, 430.
FIM SEM GLAMOUR
Enquanto esteve em funcionamento em Marília nos últimos 24 anos, o Pão de Açúcar modelou-se a caráter para atender sua clientela preferencial, recortada do estrato social, pela disposição, qualidade e preço de seus produtos.
O padrão de organização e atendimento estampado na publicidade oficial da marca replicava-se na rotina da loja de Marília, tanto para quem queria tudo de pão, quanto para ser feliz, comprando.

Mas o cenário de Doriana do Pão de Açúcar por aqui transformou-se de vez nas últimas semanas, desde a divulgação do encerramento em matéria produzida pelo editor deste blog e publicada pelo Marília Notícia no dia 16 de julho.
As prateleiras desbastecidas e as promoções com 50% de desconto expunham o destino anunciado mas não admitido oficialmente pela empresa, enquanto os clientes testemunhavam uma loja caminhando para o fim.

A confirmação pública, pela gerência da loja, ocorreria na penúltima semana com a fixação de um cartaz na porta principal com o comunicado do fechamento que ocorreria na última sexta-feira (31).
A partir daí, acelerou-se a operação desmanche da loja. Apenas as geladeiras que ainda mantinham produtos resfriados permaneceram ligadas e todas as prateleiras centrais foram desmontadas e empilhadas, encolhendo a loja que sobrou.

CARTA, ABRAÇOS E LÁGRIMAS
O amplo espaço vazio exposto acabaria preenchido pelo vai-e-vem e, principalmente, pela presença de dezenas de clientes que compareceram ao Pão de Açúcar com um propósito mais nobre do que comprar.
O blog presenciou pessoas emocionadas, abraçando funcionários. Um homem, que se identificou como Carlos Cardoso, distribuiu uma carta a todos em que expressava seu agradecimento pelos “serviços prestados”.

“Desde já é uma saudade”, resumiu o cliente porque vizinho de trabalho do Pão de Açúcar, o farmacêutico Antonio Carlos Garcia, o Cebola, 72 anos. “Atendemos vários clientes e funcionários daqui por 22 anos. É uma história que fica”.

Apesar das lágrimas provocadas pelas despedidas com clientes, o blog presenciou funcionários que mantinham sorriso aberto no rosto, à beira da rescisão contratual prevista para ocorrer nesta semana.
Ainda em expediente, os colegas Edmar Leandro da Silva Santos e Eric Luís mantiveram o protocolo da simpatia do atendimento – no caso, ao blog – apesar do esforço para carregar empilhar algumas prateleiras metálicas.

Edmar havia trabalhado por último na peixaria, desativada há semanas. Dedicou os últimos 23 de seus 42 anos de vida ao expediente diário no Pão de Açúcar. “Fica a aprendizagem e a amizade com os clientes”.
FIM DE CARREIRA
A maioria dos funcionários ouvidos pelo blog afirmou ter sido sondada por representantes de outros supermercados da cidade para recontratação em suas funções, ainda que prefira um tempo de descanso por enquanto.
Aos 69 anos, o açougueiro Adalgiso Ferreira, conhecido como seo Zizo, vai pendurar as facas após 36 anos de atividade, encerrando a carreira mais longeva de um comerciário em atividade em Marília.
Uma trajetória, aliás, construída no mesmo ponto comercial, desde maio de 1990. Contratado pelo Santo Antonio, permaneceu nas lojas que se sucederam no prédio: Mercosuper, Snack, Sé e Pão de Açúcar – este último, desde 2002.

“Fico triste. Eu até queria sair daqui, mas deixando a porta aberta”, lamentou. Casado, pai de três filhos e aposentado há 13 anos, o veterano comerciário afirmou que agora pretende se dedicar apenas à família. “Hora de descansar”, frisou.
FUTURO INDEFINIDO
Após mais de quatro décadas servindo diferentes empresas do ramo supermercadista, o prédio ocupado por último pelo Pão de Açúcar não deverá mais abrigar nenhuma outra – inclusive da principal nascida na cidade, o Tauste.
O blog apurou que área pertence ao diretor da empresa mariliense, que dirige um negócio à parte dedicado ao mercado imobiliário que, por sua vez, não é a Tack Incorporadora, cujo presidente é outro irmão da família Montolar.

“Não vai ser Tauste, com certeza. O destino só saberemos após a realização de vistoria para avaliação do prédio”, afirmou o diretor do Tauste Social, Guilherme Cunha. “Até temos empresas interessadas na área, mas avaliaremos as opções”.
A entrega efetiva do prédio, ainda segundo Cunha, ocorrerá entre o final de agosto e início de setembro. Até lá, a marca Pão de Açúcar deve seguir exposta na fachada, despedindo-se da cidade pela 2ª vez após breve passagem nos anos 1980.
