PARADA DO ABANDONO
- Rodrigo Viudes
- há 2 dias
- 8 min de leitura
Atualizado: há 1 dia
Estação ferroviária de Marília reaparece no roteiro do descaso depois de décadas de omissão pública, soluções políticas improvisadas e promessas recicladas de revitalização urbana e retorno dos trens de cargas e até de passageiros

Ponto de partida do Ano Novo, o dia 1º de janeiro de 2026 marcou, por vias judiciais, o fim da linha para o transporte de mercadorias e serviços embarcados em um camelódromo sobre trilhos na estação ferroviária de Marília.
Um mês após o cumprimento da decisão da Vara da Fazenda Pública, em favor da reintegração de posse da Rumo Logística, atual concessionária da estrada de ferro, os escombros do abandono retornaram à velha plataforma.
Neste post, o blog trafega pelos “porquês” do novo desembarque do desleixo com os trilhos que conduziram Marília por décadas antes e depois da desestatização, com paradas pelos episódios mais recentes.
Da tentativa de resgate social após a interrupção do tráfego de trens, à invasão do extinto pátio, o custo da omissão pública, à revitalização prometida e o retorno anunciado do transporte de cargas e até de passageiros.

PASSAGEM ESTATAL
Por 73 de seus 96 anos – completados em 24 de dezembro de 2025 –, a estação ferroviária de Marília serviu ao transporte diário de passageiros – e de cargas, estocadas em antigos barracões laterais, hoje demolidos.

Da chegada do 1º comboio, em 1º de maio de 1928 ao último, em 14 de março de 2001, a plataforma de embarque e desembarque conduziu os destinos dos que chegavam e saíam, servida por ferroviários, bar e ambulantes.
Atravessavam Marília, de norte a sul, e vice-versa, as composições da Companhia Paulista de Estradas de Ferro (até 1971), da Ferrovias Paulista S/A (Fepasa, até 1998) e Ferrovias Bandeirantes (Ferroban, até 2001, por obrigação contratual).

Ainda que a redução da qualidade do serviço tenha sido observada no decorrer das décadas, sobretudo pela diminuição de investimentos do governo paulista na ferrovia, a estação manteve sua integridade funcional enquanto recebeu seus passageiros.
Entre 2002 e 2018, o fluxo de pessoas continuou nas dependências da “Estação Saúde Marília”, cujo hall e demais espaços foram ocupados pela administração municipal para entrega de medicamentos. Devolvido à União, o prédio segue fechado.

TRANSBORDO PRIVADO
Com o encerramento das operações da Fepasa, a estação passou a conviver com a descontinuidade do fluxo regular de trens, agora exclusivamente para o transporte de cargas, ainda pela Ferroban, no início dos anos 2000.
Na época, o serviço dependia dos contratos fechados para transporte das safras de açúcar armazenadas na Ceagesp de Tupã (SP). A última carga sobre trilhos atravessou Marília em janeiro de 2009, quando já operava a extinta América Latina Logística (ALL).

Desde então, as movimentações esporádicas nos trilhos ficaram restritas a um auto de linha, que ainda utilizava a estação como parada. Desde 2010, nunca mais um equipamento ferroviário passou pelos trilhos de Marília.
O desuso do modal continuou após a incorporação da ALL à Rumo Logística, que assumiu a concessão do ramal em fevereiro de 2015, sem que houvesse qualquer investimento nas vias da penúria ferroviária em Marília – e em todo o trecho oeste-paulista.
ESTAÇÃO CULTURA
Apesar do desaparecimento dos trens, a velha gare não ficaria sem tráfego – e tráfico – em plena luz do dia, à beira do maior centro popular de compras, o camelódromo, encravado no coração da cidade.
O cenário de abandono seria transformado, em 2018, pela iniciativa de um catador de recicláveis que percebeu naquele espaço uma oportunidade para reintegração social de pessoas em situação de vulnerabilidade e egressos do sistema prisional.

Assim nasceu a Estação Cultura, não sem antes a ‘bênção’ do crime que já havia ocupado o espaço vago pelo estado. “A gente não pôde fazer nada sem ir até eles antes (sic)”, contou ao blog, Ademar Aparecido de Jesus, o Dema.
O lixo que havia sido amontoado por anos cedeu espaço à limpeza, à pintura, à arborização e até à instalação de uma passarela sobre os trilhos da estação, pela qual desfilaram dezenas de casais em um matrimônio coletivo (assista abaixo).
Enquanto atuou como polo cultural e ambiental, a Estação Cultura ocupou as dependências externas da estação e o pátio para feiras, biblioteca, serviços gratuitos e a instalação dos primeiros boxes para venda de artesanatos e roupas.

Em 2020, a Estação Cultura, já representado por dezenas de membros, formalizou acordo com a Rumo Logística, em que se comprometia a se retirar do local tão logo a concessionária solicitasse para retomada do tráfego de trens.
DESCARRILAMENTOS POLÍTICOS
Naquele ano de eleições municipais, o encontro entre projeto e concessionária foi intermediado à época pelo então deputado estadual pelo PSB e atual prefeito de Marília, Vinicius Camarinha (PSDB).
Então chefe do Executivo em busca de reeleição, Daniel Alonso (PSDB, hoje PL) autorizou as interligações de água e de energia elétrica – o primeiro, pelo extinto Daem, e o segundo, providenciado pela CPFL.

No mesmo embalo eleitoral, Dema, que ainda liderava o projeto, lançou-se novamente candidato à Câmara Municipal pelo extinto PROS, que compôs coligação de apoio a Abelardo Camarinha (Podemos), derrotado por Alonso.
Mantido no cargo, o prefeito tornou-se adversário político do líder da Estação Cultura que, ainda durante a pandemia do novo coronavírus, se afastaria do projeto, relegando-o a outras lideranças.
CAMELÓDROMO FERROVIÁRIO
Enquanto o comércio fechava as portas por determinação do governo estadual, a estação ferroviária assistia à multiplicação de boxes em sua plataforma e no antigo pátio que havia restado nas proximidades da passagem de nível da Nove de Julho.

A natureza que dominava a ornamentação do espaço foi substituída por estruturas metálicas fincadas sobre os trilhos. No mercado paralelo do camelódromo ferroviário, cada nova loja custava até R$ 7 mil, segundo apuração do blog à época.
O projeto cultural e social que havia acabou reconfigurado em uma extensão clandestina do mercado popular vizinho, cujos planos de ampliação foram interrompidos em maio de 2025 após decisão favorável de reintegração de posse à Rumo.

No mês seguinte, ao final de uma audiência de conciliação na Vara da Fazenda Pública de Marília, Vinicius declarou à imprensa que apresentaria uma “solução” para o impasse. De imediato, o processo entrou em segredo de Justiça.
Passados seis meses, o prefeito mudou de planos e de forma de tratamento com os camelôs. A hipótese de transferência dos “trabalhadores” para outro local foi substituída pelo pagamento de indenização, por via judicial, aos “invasores”.

Na prática, a prefeitura informou ter desembolsado R$ 17 mil “por unidade” – no caso, 52, de acordo com “levantamento apurado mediante requerimento administrativo protocolado pela associação representante dos camelôs”.
Ou seja, a prefeitura desembolsou R$ 884 mil após “pesquisa de mercado, levando em conta a razoabilidade e proporcionalidade, a prudência administrativa e a economicidade”, em “substituição à realocação”, conforme explicou em nota ao blog.
Camelôs ouvidos pelo blog na antevéspera do cumprimento da decisão judicial de reintegração informaram ter ficado de fora da lista de pagamentos. O acerto judicial, supostamente parcial, desarticulou o reclame da minoria.

Nas últimas semanas de dezembro, ainda permaneciam abertos poucos boxes à beira da linha. Aposentados alegaram utilizar o espaço gratuitamente, a exemplo de ex-moradores dos ‘predinhos do CDHU’, que passaram a utilizar os espaços como moradia.
PROJETOS EM TRÁFEGO
A saída dos ‘camelôs ferroviários’ atende o interesse do governo municipal de revitalizar parte do antigo pátio da estação com a instalação de um Parque Linear composto por ciclovia e paisagismo ao lado da ferrovia.
Apresentado ao final do primeiro semestre de governo de Daniel Alonso (PSDB, hoje PL), em 2017, o projeto ganhou nova versão com Vinicius, e autorização, pela Câmara Municipal, para empréstimo do dinheiro junto ao governo estadual.

“Em razão da transferência de domínio por decisão judicial, os projetos anteriormente planejados para o trecho — como a implantação do Parque Linear — dependem agora de novas tratativas e autorizações junto à concessionária e aos órgãos federais reguladores”, informou a prefeitura ao blog.
A Rumo, por sua vez, afirmou que ainda conduz “levantamento técnico da área já desocupada”. “A partir da conclusão desse relatório, será definido o cronograma para o início da limpeza. No momento, ainda não há data prevista para o início da ação”, disse.

Na mesma nota, a concessionária reafirma que o “trecho de Marília está inserido no ramal Bauru-Panorama, tendo a empresa assumido o compromisso contratual de reativação do ramal junto à União”.
As “obras de reativação”, continua a Rumo, “estão previstas para serem concluídas até 2028, conforme contrato com a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT)”. A retomada do tráfego viria depois, mediante contratação do transporte de cargas.
A hipótese até poucos anos remota do retorno dos trens de passageiros a Marília reapareceu no fim do túnel após a publicação, em novembro de 2024, de estudos do governo paulista de novas rotas de trens intercidades.

A Secretaria de Parcerias em Investimentos ‘esticou’ o Trem Intercidades (TIC) Eixo-Oeste São Paulo-Sorocaba até Marília, seguindo pela antiga Estrada de Ferro Sorocabana (1875-1971), passando por Botucatu e Bauru.
O TIC Eixo-Oeste está em fase de finalização de edital. O leilão está previsto para o segundo semestre deste ano – e o início das operações, em 2029. A extensão do serviço até Marília demandaria outros leilões.
ABANDONO, ÁGUA E LUZ
Sem trens e, agora, camelôs sobre seus trilhos, a ferrovia em Marília segue com outros serviços ativos. No caso, aqueles implantados com autorização da Prefeitura de Marília, um mês após o cumprimento da sentença judicial.
Na sexta-feira (30), o blog constatou que ainda havia água disponível na torneira instalada à beira da linha principal e que um poste de energia elétrica, ligado à rede aérea da Nove de Julho, ainda alimentava as linhas internas, cujas ligações atendiam aos boxes do 'camelódromo ferroviário'
Procurada, a RIC Ambiental informou que “as equipes técnicas e de engenharia estão realizando um estudo criterioso na área da linha férrea, identificando pontos de vazamento, ligações irregulares e até clandestinas no local, inclusive com indícios de fraudes em lacres que haviam sido instalados anteriormente pelo antigo DAEM”.
Sobre a disponibilidade de água no local, a RIC alegou que “a área já estava inserida em um processo de desocupação, e a concessionária optou, por aguardar até que esse processo fosse concluído para resolver essa situação”.


A CPFL, por sua vez, informou ao blog que “a instalação de energia no endereço citado, em Marília, está sendo analisada e tratada junto às autoridades competentes". Mas não respondeu sobre a regularidade da instalação de seus postes no local.
Ex-camelôs que trabalhavam por ali relataram ao blog que espaços mantidos até então pelo uso comum – os banheiros, principalmente – já foram vandalizados supostamente por moradores de ruas e usuários de drogas.
O mesmo perfil de frequentadores que haviam transformado a estação em um lixão a céu aberto após a desativação e até a chegada do projeto cultural que, a exemplo do trem, também passou por ali.
A Rumo informou ao blog estar realizando rondas “pela segurança patrimonial da empresa, de forma preventiva, para evitar novas ocupações”. Na sexta-feira (30), o que sobrou do antigo camelódromo estava à própria sorte – como sempre, desde o início da concessão do trecho à iniciativa privada.



Comentários