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  • Rodrigo Viudes

PECADO SEXUAL

Prisão de recém-ordenado por pornografia infantil expõe Diocese de Marília em plena vigência de decreto papal contra pedofilia. Libertado sob fiança, padre foi afastado

Pelo menos 61 padres da Diocese de Marília confirmaram, de próprio punho, o recebimento de uma cópia impressa do decreto papal "Vos Estis Lux Mundi" (Vós Sois a Luz do Mundo) em um tradicional encontro de santificação do clero realizado no último dia 28, em Adamantina (SP).

Publicado no dia 9 de maio, o documento assinado pelo Papa Francisco chegou com o propósito de apertar o cerco a membros do clero que incorram no pecado do assédio sexual contra menores ou pessoas vulneráveis e que ainda protagonizam escândalos pelo mundo afora.

No começo da manhã desta quarta (10), apenas 12 dias após aquele momento, publicado com exclusividade por este blog, um dos signatários foi preso em flagrante em uma das maiores operações policiais de combate à exploração sexual infantil já realizadas no centro-oeste paulista.

A prisão de Denismar Rodrigo André, 42 anos de idade e com apenas pouco mais de oito meses de ministério sacerdotal, expõe a Diocese de Marília em pleno exercício do decreto de Francisco em um momento em que a Igreja Católica aparenta estar mais disposta a oferecer à sociedade respostas práticas no combate à pedofilia.


SURPRESA

Segundo o decreto, qualquer padre deve denunciar prontamente qualquer tipo de abuso sexual que tenha sido praticado, seja por um colega de batina ou superior. No entanto, a acusação que agora pesa contra Denismar só tornou-se conhecida por iniciativa da Polícia Civil.

Sacerdotes ouvidos pelo blog demonstraram surpresa pela prisão do colega. "Ele era fora de qualquer suspeita", afirmou um padre, entrevistado sob a condição de anonimato. "Esperava até que fosse outro sacerdote, mas nos surpreendeu tanto quem foi como o que fez", analisou outro.

Denismar foi preso na casa de sua família, em Tupã (SP). Lá, foi apreendida farta quantidade de imagens pornográficas de menores arquivadas em HDs, pendrives e em computadores. Ele confessou ter baixado todo o conteúdo, mas negou compartilhamentos e pedofilia, segundo informou a delegada da Defesa da Mulher, Cristiane Camargo Braga.

O pregresso criminoso admitido pelo sacerdote ordenado em 3 de novembro do ano passado passou incólume ao escrutínio a que foi submetido pela Cúria de Marília antes de assumir sua batina. Ou seja: o processo foi insuficiente para detectar, ainda no período de sua formação, informações que subsidiassem eventual impedimento por conduta moral incompatível com o exercício do sacerdócio.

AFASTAMENTO

O decreto prevê, ainda, medidas cautelares "se os fatos ou as circunstâncias exigirem". O bispo de Marília, dom Luiz Antonio Cipolini, optou por afastar Denismar "ad cautelam" de todas as suas atividades clericais, "até que o inquérito policial seja concluído". Ele estava como administrador da Paróquia Nossa Senhora de Fátima do Jóquei, da zona sul de Marília.

Na prática, significa que Denismar vai aguardar em casa os desdobramentos, sejam os do inquérito policial como também os do processo que a Cúria abriu para analisar e julgar o seu caso. O padre foi solto no começo da noite desta quarta (10) após pagamento de fiança, cujo valor, não divulgado, teria sido rateado por familiares.

Ao mesmo tempo que o padre deixava a DDM, a Cúria emitia uma nota pública, assinada pelo bispo, para manifestar-se "consternada com o ocorrido" e informar que "a Diocese de Marília não compactua com comportamentos que ferem o ministério sacerdotal e a dignidade humana e espera o esclarecimento dos fatos".

O blog tentou contato com o padre, após a sua soltura, mas não obteve retorno até a publicação deste post, já na madrugada desta quinta-feira (11). Em entrevista ao portal de notícias G1, o advogado de Denismar afirmou que não comentaria sobre o caso. Até o final da tarde de ontem, a secretaria da paróquia Nossa Senhora de Fátima do Jóquei insistia na informação de que o padre havia "saído de férias".

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