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  • Rodrigo Viudes

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Atualizado: Abr 6

Renovada quase pela metade, representação presbiterial da Diocese de Marília inicia mandato 2020-2021 com missão de orientar bispo sob as novas normas de Francisco


Nova formação do Conselho Presbiterial da Diocese de Marília para o biênio 2020-2021 (Crédito: Pascom Diocesana)

Às vésperas da recente celebração do nascimento do Menino Jesus, o Papa Francisco apertou ainda mais o cerco contra clérigos acusados de violência sexual e abuso de menores ao abolir o segredo pontifício a estes tipos de crimes, determinando, inclusive, o atendimento a "pedidos executivos das autoridades judiciais civis" por ocasião de abertura de inquéritos e demais investigações e, sobretudo, não "ser imposto algum vínculo de silêncio".

É sob o espírito desta pretensa 'virada' da Igreja Católica, que vive tempos de reformas internas em curso nestes dias de Francisco, a fim de que se torne mais colaborativa, acessível, transparente e justa no trato com os próprios pecados, com os fiéis e com a sociedade em geral, que o Conselho Presbiterial da Diocese de Marília avançou o réveillon rumo a um novo mandato (2020-2021).

PUBLICAÇÃO DISCRETA

A nova composição do conselho foi definida na Assembleia Geral do Clero da Diocese de Marília realizada no dia 10 de dezembro na Casa Pastoral Diocesana Dom Osvaldo Giuntini, em Adamantina (SP). Até a publicação deste post, a única divulgação oficial da Cúria local sobre o assunto havia sido uma nota, ainda na edição de dezembro no jornal diocesano 'No Meio de Nós'.



Ao menos por ora não havia sido publicada nenhuma circular sobre o assunto no site oficial da Diocese de Marília, a exemplo do que ocorrera da última eleição, ocorrida em 2018. Na ocasião, dom Luiz Antonio Cipolini divulgou ainda a nova formação do Colégio de Consultores (cujo mandato tem vigência de cinco anos) e o estatuto deste colegiado, datado de 28 de dezembro daquele ano.


RENOVAÇÃO PARCIAL

Diferentemente de 2018, quando trocou seu então vigário geral em meio a uma série de denúncias, o Conselho Presbiterial teve mantida a maioria de seus principais quadros - apesar da desconfiança de falta de lisura no processo eleitoral neste caso, segundo análise de padres consultados pelo blog (tratamos sobre isso mais abaixo).

Além da manutenção do vigário geral, o padre Maurício Pereira Sevilha, agora pároco do Santuário Sagrado Coração de Jesus, de Vera Cruz (SP), a formação dos cargos principais do conselho presbiterial ficou assim:


Os vigários episcopais foram definidos pelo bispo. Por costume da diocese local, houve uma consulta ao presbitério. Puderam se manifestar, neste caso, apenas os sacerdotes atuantes na própria região. Entre estes, somente aqueles com mais de 30 anos poderiam ser escolhidos. Diáconos não votam.

Os escolhidos foram apenas anunciados pelo bispo. Houve o caso até de 'boca de urna' que indicou resultado adverso ao declarado oficialmente, segundo confidenciaram alguns sacerdotes. Dom Luiz não se manifestou sobre o assunto até a publicação deste post.

Única novidade entre os vigários episcopais, o padre Ademilson Ferreira, escolhido para a 'região 3', confirmou ao blog ter sido consultado pelo bispo, ainda antes da reunião, a fim de nomeá-lo ao cargo. "Ele me ligou e me convidou para mais esta missão e eu, em obediência, aceitei", afirmou.

Ademilsom havia ocupado recentemente outro cargo de confiança de dom Cipolini: a coordenação do Centro Diocesano de Pastoral (CDP), em Marília, até ser transferido, de última hora, em dezembro de 2018, para Panorama (SP), na lacuna de um padre transferido 'para missão' à Amazônia - cujos reais motivos este blog revelou.

Apesar da média atual de 21,1 anos de tempo de sacerdócio, o clero diocesano escolheu como representante no conselho um jovem de idade e ofício sacramental: Luiz Henrique de Araújo, 35 anos, os últimos oito sob a batina. Ele é pároco de Nossa Senhora Aparecida, em Ouro Verde (SP), localizada na 'região 3' da Diocese de Marília, a mais longínqua da Cúria - no caso dele, a 198 quilômetros da cidade-sede.

TROCA GERAL

Além dos vigários episcopais e do próprio representante, o presbitério escolheu, também por votação, durante a Assembleia Geral, os cinco membros para o próximo mandato. Nenhum dos anteriores foi reeleito. A troca foi geral. Confira:


Segundo o estatuto - cuja cópia, que segue ao final deste post, foi cedida prontamente pelo vigário geral - a eleição se deu como recomenda o cânon 119, § 1º: "Depois de dois escrutínios ineficazes faça-se a votação entre os dois candidatos que tiverem conseguido a maior parte dos votos, ou se forem mais, entre os dois mais velhos de idade (...)".

Novamente, o clero manifestou sua predileção, por iniciativa, necessidade ou omissão, a padres jovens. Aos 34 anos, Marcelo Feltri, foi o primeiro mais votado, seguido por Anderson Messina Perini, 36 anos, e Márcio Roberto Rios Martins, 44 anos, mas apenas 11 de sacerdócio. Completaram a lista, pela ordem, os veteranos Valdo de Santana, 54 anos e Paulo Joaquim de Souza, o 'Quinzinho', 56 anos.

DEVER CANÔNICO

Apesar do poder atribuído ao seu ofício e embora o conselho presbiterial seja de caráter consultivo, o bispo tem o dever canônico de consultá-lo nos seguintes casos:


  • Instalação de um sínodo diocesano

  • Erigir, suprimir ou alterar paróquias

  • Prescrição do destino de ofertas recebidas de fiéis e a remuneração de clérigos que desempenhem algum múnus paroquial

  • Constituição de conselho pastoral paroquial

  • Edificação de uma nova igreja

  • Redução de um templo para uso profano não sórdido

  • Imposição do pagamento um tributo moderado às pessoas jurídicas públicas sob sua jurisdição

  • Remoção de padres


Segundo o próprio estatuto, o conselho presbiterial ocupa-se das seguintes questões:


  • Da vida, ministério, espiritualidade, atualização teológica e pastoral dos presbíteros da diocese

  • Da transferência, substituição e admissão dos presbíteros na diocese

  • Dos escrutínios dos candidatos às Ordens Sacras

  • Da promoção de iniciativas e medidas que estimulem a fraternidade e a solidariedade entre os presbíteros

  • Da manutençao dos clérigos

  • Da ação pastoral, em sintonia com o Conselho Diocesano de Pastoral ou outros organismos que lhe façam as vezes, principalmente no que diz respeito ao ministério dos presbíteros e diáconos da diocese


DENÚNCIAS

Um outro item, cada vez mais recorrente, inclusive na Diocese de Marília, é a análise de denúncias - inicialmente pelo próprio bispo e, inclusive, pelo conselho presbiterial. Dom Luiz o convocou para uma reunião extraordinária, realizada em sua própria Casa Episcopal, dia 11 de maio de 2019, para tratar principalmente sobre a situação, ainda pendente, de um padre afastado, acusado de assédio sexual a um menor de idade, quando era pároco de uma cidade da região.

Ainda em 2019, a Diocese de Marília teve que lidar também com o escândalo de outro crime sexual de um de seus então dez recém-ordenados sacerdote. Denismar Rodrigo André foi preso sob acusação de possuir e armazenar material audiovisual de pornografia infantil. Ele pagou fiança e foi solto, mas acabou afastado por tempo indeterminado por decreto ad cautelam assinado por dom Luiz Antonio Cipolini.

AINDA OS QUE CHEGAM...

Além destes dois casos, vários outros passaram pela Cúria local nos últimos anos. Entre os que precisaram passar pelo crivo do conselho presbiterial, está o de um dos novos membros do próprio órgão diocesano: o do padre 'Quinzinho'. Afastado por vários anos, ele foi readmitido ao presbitério. É o atual pároco da Paróquia São Francisco de Assis, de Adamantina (SP), a 65ª e última instalada na Diocese de Marília.

Entre os demais novos integrantes do conselho presbiterial está o atual assessor diocesano de pastoral litúrgica, Anderson Messina Perini, que disse ter ficado surpreso com a indicação de seu nome. "Como decisão da assembleia dos presbíteros estou à serviço da igreja e da diocese para colaborar nas decisões com o bispo para a promoção do Reino de Deus", afirmou ao blog.

Escolhido pelo próprio bispo, o reitor do Seminário Diocesano Rainha dos Apóstolos, Wagner Montoz foi mantido no conselho. O outro nome definido por dom Luiz, do pároco e reitor do Santuário São Judas Tadeu, padre José Antonio de Sousa, simboliza representação das congregações religiosas.


E OS QUE SAEM...

Por outro lado, por decisão da maioria - um raro instante de democracia em uma instituição hierarquizada tal como as Forças Armadas - sete padres foram substituídos no Conselho Presbiterial. Saiba quais foram:

O padre Wilson Luiz Ramos havia sido um dos dois escolhidos diretamente pelo bispo para a última composição do conselho, em dezembro de 2018. Exatamente quatro anos antes, ambos estavam em lados opostos em um dos momentos mais constrangedores do atual episcopado de Marília.

Wilson foi afastado de sua então paróquia, Santo Antonio de Pádua, de Adamantina (SP), sob o argumento, do bispo, de que sua presença estaria provocando uma divisão na comunidade. Apesar dos apelos de centenas de paroquianos, dom Luiz não recuou de sua decisão.

Na época, o bispo de Marília chegou a ser acusado de racismo por fiéis apoiadores do padre por supostamente ter cedido à pressão de pessoas que teriam proferido ofensas raciais contra o padre. Apesar do ambiente hostil, dom Luiz não abriu mão de celebrar o Crisma na própria igreja, dia 7 de dezembro de 2014.

Os protestos não pouparam nem a cerimônia, apesar dos pedidos de respeito feitos pelo padre. Moedas chegaram a ser lançadas ao altar. Encerrada a missa, uma multidão aguardou por explicações, do lado de fora, enquanto o bispo, acuado, isolou-se dos apelos do próprio rebanho. Já passava da meia-noite quando ele deixou a igreja, escondido em uma viatura policial, rumo a Marília, a tempo que o galo - e não um macaco, como teriam desejado alguns - pudesse cantar e denunciar as negações que testemunhou do alto da matriz de Adamantina.

Desalojado da própria casa paroquial, o padre ainda passaria pelo constrangimento de morar de favor junto com a mãe. Ainda antes da 'virada', ele assumiria o Santuário Nossa Senhora de Fátima de Dracena (SP), para onde foi transferido e permanece até os dias de hoje. Em seu lugar foi remanejado o padre Rui Rodrigues, agora ex-representante dos presbíteros no conselho.

O padre Edson de Oliveira Lima, das paróquias Nossa Senhora Aparecida de Quintana (SP) e Paulópolis (SP) é outro que teve sua passagem abreviada pelo conselho. A sua escolha se deu à luz da expectativa gerada no clero de que sua figura pública, erigida na defesa de causas sociais, pudesse encontrar voz e vez também no conselho. Não foi bem assim.

Condenado a prestar serviços comunitários por ofensas contra o então prefeito de Marília e atual deputado estadual, Vinícius Camarinha (PSB), Edson havia tido sua pena suspensa pelo juiz da 1ª Vara Criminal da Justiça de Marília, Luis Augusto da Silva Campoy, que reconsiderou sua decisão em despacho publicado em dezembro. O Colégio Recursal em Marília, no entanto, não acatou seu recurso.

ESTATUTO

Confira abaixo cópia da íntegra do Estatuto do Conselho Presbiterial da Diocese de Marília, datado de 15 de dezembro de 2015 e ainda a ser publicado pela Cúria:






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