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SASAZAKI FECHA AS PORTAS

há 4 horas
4 min de leitura

Uma das principais marcas industriais da história de Marília, fábrica de esquadrias encerra suas atividades após 83 anos. Da lamparina à última janela, a trajetória da empresa fundada por descendentes de imigrantes japoneses que chegou a ser referência em produtos de aço e alumínio na América Latina e terminou mergulhada em dívidas


Após fabricar milhares de portas, a Sasazaki fechou as suas nesta sexta-feira, após 83 anos de atividade
Após fabricar milhares de portas, a Sasazaki fechou as suas nesta sexta-feira, após 83 anos de atividade

Por trinta anos, dois meses e 18 dias, o metalúrgico Claudinei dos Santos, 49 anos, fez sempre igual: saiu nas primeiras horas da manhã e atravessou Marília, da zona sul à norte, para bater o cartão, pontual, e iniciar sua jornada de trabalho na Sasazaki.

Na manhã desta sexta-feira (25), ele e as poucas dezenas de funcionários remanescentes dos milhares que já dividiram o expediente diário da empresa que chegou a ser uma das maiores da América Latina conheceram a demissão.

Após 83 anos de atividade, uma das principais marcas industriais da história de Marília interrompeu a produção pela última vez. Atolada em dívidas e sem janelas de expectativa para o futuro, a Sasazaki fechou as portas.

A decisão foi confirmada ao Blog do Rodrigo por ex-funcionários e também pelo sindicato da categoria. A empresa ainda não havia se manifestado publicamente até a publicação desta matéria.


 

ÚLTIMO MEIO EXPEDIENTE

Segundo relatos recebidos pelo blog, os funcionários foram chamados a comparecer em uma sala por volta das 9h30 desta sexta (25). Um supervisor teria começado a conversa agradecendo a todos pela dedicação à empresa.

Na sequência, outros representantes da empresa se revezaram no comunicado sobre a demissão, o pagamento dos direitos trabalhistas em 24 parcelas e, por fim, na confirmação do encerramento das operações.

Cargas derradeiras: caminhão aguarda carregamento de esquadrias nos últimos dias de produção
Cargas derradeiras: caminhão aguarda carregamento de esquadrias nos últimos dias de produção

Findado o anúncio, os desligamentos começaram a ser formalizados e assinados, um a um. Dali, os funcionários saíram para recolher seus pertences. O restaurante até permaneceu aberto, mas o último expediente terminou às 11h30.

“O que se via era só tristeza nos olhos de todo mundo. Alguns colegas choraram. Eu acho que fiz minha parte”, afirmou Claudinei. “Entrei com 18 anos, solteiro e saio casado, avô, pai de três filhas e quatro netos. Consegui tudo que tenho pelo meu único emprego da vida. Sou grato à Sasazaki”.
O metalúrgico Claudinei dos Santos despediu-se do único emprego após 30 anos | Foto: Arquivo Pessoal
O metalúrgico Claudinei dos Santos despediu-se do único emprego após 30 anos | Foto: Arquivo Pessoal

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DA AGRICULTURA ÀS ESQUADRIAS

As primeiras vidas transformadas pela Sasazaki foram as dos próprios fundadores. Os irmãos Kosaku e Yusaburo e o amigo Kyomassa Shibuya resolveram fabricar lamparinas artesanais para sustentarem suas famílias.

Era 1943, em plena Segunda Guerra Mundial, mas em Marília a produção de algodão batia recordes e exigia novas soluções para o campo. Em apenas dois anos, a pequena empresa já produzia plantadeiras manuais e descascadores de amendoim.

O aumento da demanda atraiu outros três irmãos – Hachiro, Tochimiti e Yutaka – e impôs a necessidade da ampliação do negócio. A nova composição de sócios daria início à Industria e Comércio Sasazaki, com a contratação dos primeiros 50 funcionários.


Primeiros produtos: descascadora de amendoim e plantadeiras da Sasazaki | Foto: Arquivo histórico
Primeiros produtos: descascadora de amendoim e plantadeiras da Sasazaki | Foto: Arquivo histórico

A fase de mecanização acrescentou a produção de máquinas agrícolas nas décadas de 1950, 1960, adentrando os anos de 1970. A geada histórica de 1975, no entanto, arrasou a cultura cafeeira, principal fonte de renda da Sasazaki.

Ainda naquele ano, a Sasazaki deu uma guinada na produção. A empresa reposicionou-se no mercado de esquadrias e começou a produzir janelas venezianas. As primeiras portas saíram para venda em 1976.

Os barracões ocupados pela empresa na avenida Brasil, no centro de Marília, ficariam saturados com o aumento da produção nas duas décadas seguintes, demandando a transferência para novas instalações, em 1996, na zona norte.


Sasazaki ocupou por décadas barracões da avenida Brasil, no centro de Marília | Foto: Arquivo histórico
Sasazaki ocupou por décadas barracões da avenida Brasil, no centro de Marília | Foto: Arquivo histórico
Sasazaki transferiu suas atividades para nova planta no distrito industrial em 1996 | Foto: Site da empresa
Sasazaki transferiu suas atividades para nova planta no distrito industrial em 1996 | Foto: Site da empresa

A criação da Divisão de Esquadrias de Alumínio, no ano seguinte, ampliou ainda mais a nova unidade fabril para 70 mil metros quadrados de área construída. Nos anos 2000, a Sasazaki já vendia para todo o Brasil.

Em 2010, a família Sasazaki profissionaliza a sucessão administrativa da empresa, pouco antes do ingresso no concorrido mercado de portas e janelas integradas acionadas por controle remoto.

O portfólio é ampliado e modernizado. Em 2022, a Sasazaki lança sua nova identidade visual enquanto apresentava ao mercado a primeira esquadria pronta para a instalação destinada a pessoas com deficiência motora.

 

DEMISSÕES E RECUPERAÇÃO JUDICIAL

Naquele momento, a empresa já convivia com dificuldades para manter seu quadro de funcionários. Em 2019, a Sasazaki demitiu cerca de 170 funcionários, reduzindo em um terço sua força produtiva.

A empresa que, décadas antes, chegou a empregar mais de mil pessoas, direta e indiretamente, sofria para manter as contas em dia. Em 2023, além das demissões, chegou a suspender a produção por semanas.

No ano seguinte, a empresa entrou com pedido de recuperação judicial. Na ocasião, declarou um endividamento de R$ 35 milhões, dos quais R$ 6 milhões seriam de passivos trabalhistas com funcionários demitidos.



Nos últimos anos, com a intervenção do sindicato, foram assinados acordos de redução de jornadas e salários, na tentativa de manter alguma produção que ajudasse a pagar as contas. Nos últimos dias, fabricou as últimas portas e janelas.

 

MARCA QUE SE VAI

Com o fechamento da Sasazaki, Marília perde sua maior referência industrial do setor de metalurgia, além daquelas em que é conhecida nacionalmente devido à diversificada produção no segmento de alimentos.

A criação da Sasazaki, em 1943, ocorreu quase que simultaneamente à do Bradesco. Dois anos depois, nasceria a Ailiram, cujo parque fabril seria adquirido nos anos 1980 pela Nestlé, que mantém sua unidade na cidade.

A Marilan, atual segunda maior fabricante de biscoitos do Brasil, instalaria sua primeira fábrica em 1956, apenas cinco anos antes da fundação da Táxi Aéreo Marília (TAM), atual Latam, uma das maiores companhias aéreas da América Latina.

A Dori Alimentos começaria sua produção de doces em 1967. A empresa genuinamente mariliense teve 100% de suas ações vendidas em julho de 2023 à estadunidense Ferrara Candy Company.



2 comentários


Ana Maio
há poucos segundos

Reportagem humanizada pra descrever algo inimaginável. A empresa era uma potência!

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Marcos Farto
Marcos Farto
há 4 horas

Que notícia triste.

A Sasazaki muito contribuiu pelo país e nossa cidade...

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