UM SÉCULO, DUAS HISTÓRIAS
- Rodrigo Viudes
- há 1 dia
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Atualizado: há 39 minutos
Migração, trabalho, 12 filhos, seis perdas e 71 anos de vida a dois: uma história de amor, sobrevivência e memória que atravessa quase um século de transformações no Brasil. De Sergipe a Marília, as trajetórias de Valdevino, 100 anos, e Maria Julia, 90

A festa do Dia dos Pais, celebrada no último domingo (9), valeu por um século de comemorações para a família Barbosa. O patriarca, seo Valdevino, soprou as velinhas de três dígitos – algo para poucos em Marília.
Sentada em sua cadeira de rodas, a esposa, Maria Julia, na altura de seus 90 anos, observava parte da família que ajudou a construir – metade dos 12 filhos e a maioria dos 64 netos e bisnetos – com a serenidade de quem muito viveu.
Lado a lado, 71 anos de vida a dois – os últimos 57, de casamento “no papel” – e uma trajetória de migração, trabalho, sofrimentos, ganhos, perdas. Um século, mas duas histórias. Além de Valdevino, Maria Julia.
LAGARTO, 1926
Ele nasceu em Lagarto, no agreste sergipano. A cidade já tinha 46 anos quando Valdevino chegou à casa de Elizeu, agricultor como quase todos ali, mas animador de Folia de Reis, e de dona Adelina.

A atual Capital Nacional da Vaquejada era essencialmente rural. Mandioca, milho, feijão, algodão e fumo germinavam, vendidos a mil-réis, para a subsistência de pouco mais de 10,5 mil habitantes.
Valdevino veio antes que o Cruzeiro. Sancionada meses depois de seu nascimento pelo último presidente da República Velha, Washington Luís (1869-1957), a lei que criava a nova moeda nacional só entraria em vigor em 1942, com o início da circulação pelo país.
FOME, ABANDONO E FUGA
O pequeno Zizi deixaria sua casa ainda na tenra infância. Sem ter como criá-lo, sua mãe o entregou a um padrinho. Cuidado à beira da miséria, comia o que tinha. “Eu era viciado em engolir terra”, conta. Por isso, sofria castigos.
Chegou a ter que dormir entre os porcos e cabritos, deixado para fora, aterrorizado pela promessa da visita de um lobisomem. Deitado entre os bichos, precisava ajeitar a posição para não arranhar as costas marcadas pelos vergões das surras.
Ainda garotinho, seria levado pela avó Zefa para morar com uma mulher sem filhos. Ficou aos cuidados de um tal João Canuto, pescador conhecido. “Era mandado pela mulher. Ali, vivi bem. Saía na terça para o rio e só voltava no domingo”, recorda.

Na pré-adolescência, voltou a morar com a mãe, que agora dividia a casa com outro homem e mais três mulheres. O novo padrasto também era patrão. Zizi passou a enfrentar os serviços pesados da roça. Nas horas vagas, fumava cachimbo.
O hábito do menino, conhecido aos 14 anos, não agradou o homem, que lhe prometeu um corretivo que o deixaria de cama por seis meses. “Não pensei duas vezes. Pus meu ‘cacaio’ nas costas. Peguei minha enxada e fui embora”.
PARALISIA, BAILE E ENCONTRO
Naqueles dias, nos arredores de Salgado (SE), a pouco mais de 20 quilômetros de Lagarto, a menina Maria Julia dava seus primeiros passos, que se tornariam cada vez mais escassos no alvorecer da adolescência.
“Tive paralisia em todo o corpo ainda menina. Por não conseguir parar em pé, eu me arrastava pelo chão”, recorda a nonagenária, ainda hoje sem qualquer rastro de conhecimento sobre a moléstia que lhe cobrou anos de sua infância.
A menina Maria Julia tinha por padrasto um tocador de cavaquinho dado à vida social. Tocava na noite, e nos bailes. De quando em quando, levava a enteada, já adolescente, apenas para lhe fazer companhia.

Numa dessas festas, Maria Julia conheceu um rapaz chegado a um arrasta pé. Bem sucedido, já havia conhecido São Paulo e estava em seu quarto retorno a Sergipe. Tinha sítio, e até namorada. Era Valdevino.
Aquele primeiro encontro mudaria os rumos daquelas duas almas. Valdevino agiu logo. Desfez o compromisso firmado com outra amada, deixando o próprio sítio, a título de indenização pelos anos vividos – e os que não viriam mais, a dois.
Valdevino partiu de volta ao Sudeste pela última vez. “Nunca mais tive notícias de lá”, contou. De mala de madeira e com saco cheio de panelas, ele embarcou no primeiro pau de arara. Era 1955. Maria Julia veio junto. Ela tinha pouco mais de 14 anos.
MARÍLIA, 1955
Do agreste sergipano, Valdevino e Maria Julia vieram parar à beira da fartura das águas do rio Tietê, próximo a Cabreúva, na região metropolitana de Jundiaí. De lá, seguiram para encarar a colheita da cana, em Porecatu, no interior do Paraná.
As chuvas haviam acabado de arrasar com a colheita. Não havia muito o que trabalhar por ali. “Onde tem fazenda de café por aqui?”, questionou Valdevino. A resposta devolveria o casal ao interior de São Paulo, de uma vez por todas.
Na boleia de uma carona chegaram ao final daquela jornada migratória: a jovem Marília, na encruzilhada entre o auge da última economia gerada em seus campos de algodão e o início da industrialização alimentícia.

Em 1955, o mariliense vivia a efervescência de sua época: acabara de ganhar sua primeira loja de departamentos, a Mesbla; viajava a caráter nos trens da Companhia Paulista de Estradas de Ferro e ia às matinês do Cine Marília. E pagava tudo em cruzeiro.
Valdevino e Maria Julia ainda estavam na periferia desta realidade, literalmente. Começaram a vida por aqui como em Sergipe: no entorno da vida rural, de uma fazenda para outra, residindo em galpões com outros retirantes.
CASA, FILHOS E PERDAS
Do sacrifício do sol e da enxada conseguiram os recursos suficientes para adquirirem um lote no extremo norte da cidade: a apenas uma quadra de um campo de futebol no que viria a ser a Vila Nova de Marília.
De início, Valdevino levantou uma casa de madeira. Depois, furou um poço. A torneira mais próxima dali era compartilhada pela comunidade: uma bica na escola “Príncipe Mikasa”. Quando a água encanada chegou, o poço virou fossa.
A primeira casinha, substituída anos mais tarde pela atual, de alvenaria, conheceria a frutificação do amor entre Valdevino e Maria Julia. “A mulher que não tem filhos é como uma árvore seca”, diz, ainda hoje, a nonagenária.

Maria Julia teve 12 filhos. Enterrou seis. Perdeu os dois primeiros para a desidratação. Outros dois por assassinato: Luiz, aos 24 anos e Luciano, aos 17 anos. Laurindo se foi aos 26, em decorrência da Aids, e Luzinete, aos 52, durante a pandemia de Covid-19.
MARIA JÚLIA, A DIARISTA
Apesar da dor do luto, a matriarca perseverou. Agarrou-se à fé e ao trabalho, como diarista, para manter-se de pé. Até os 80, ainda fazia faxinas em residências, até cair, quebrar o fêmur e viver, a partir de então, em uma cadeira de rodas.
Pela força de seu trabalho e, por muitas noites, sua exclusiva atenção em tantas madrugadas, Maria Julia sustentou o ânimo de sua casa e, além dos filhos, criou netos e ajudou a trazer sua família até os dias de hoje.
Em sua nova rotina de trabalho na cidade, Valdevino encontraria na jornada noturna como vigia de uma clínica de oftalmologia uma carreira que exerceu por mais de 30 anos, até sua aposentadoria.
Apesar de servir ao trabalho religiosamente em dia, Valdevino não se ocupou de professar nenhuma fé. O casamento com a esposa evangélica foi assentado há 57 anos apenas no registro civil, no antigo cartório da Avenida Tancredo Neves.
CENTENÁRIO PARA POUCOS
Ao completar 100 anos oficialmente neste sábado (15), Valdevino juntou-se a um seleto ‘clube’ da ponta da faixa etária. O último Censo, de 2022, havia apontado apenas 32 centenários em Marília – 24 mulheres e oito homens.
É gente que já viveu mais do que a existência da próxima cidade, cujo centenário será completado oficialmente em 2028. Desde 1926, já se passaram todos os 34 prefeitos, 23 presidentes da República e a moeda mudou nove vezes.
Valdevino esbanja saúde e lucidez aos 100 anos. Pratica exercícios físicos todos os dias na bicicleta adaptada na área de sua casa e vai sozinho ao mercado pelas ruas do bairro, conduzindo sua cadeira de rodas elétrica.

Aos 90, Maria Julia confessa não fazer planos para alcançar a longevidade do marido. “Não quero ir tão longe, não. Tenho artrite, artrose, meus ombros doem. Só Deus sabe o sofrimento que eu tenho”, afirmou. “Daqui pra frente, é com Deus”.



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