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A (IN)DEPENDÊNCIA DA FÉ

Atualizado: 16 de set. de 2022

A subserviência militante das colônias religiosas em tempos de vassalagem às coroas políticas em Marília. Da devoção às famílias e ao imperador, da multidão em marcha nas ruas ao grito dos excluídos às margens da fonte da Praça Maria Izabel


Emancipada a município em 1929, no alvorecer da República Velha, Marília demorou a alcançar sua independência democrática ao eleger, apenas em 1947, Miguel Argolo Ferrão, o primeiro prefeito proclamado pelas urnas.

Aos 200 anos da Independência do país, comemorados no Sete de Setembro desta quarta-feira e às vésperas da nona eleição presidencial da Sexta República, a cidade ainda mantém resquícios dos tempos do Império nos dias atuais.

Ao menos, na relação subserviente entre os poderes da fé e dos governos regentes, com pontuais lapsos de distanciamento, conforme se observou em cinco recentes momentos em Marília em que o civismo se confundiu com a religião, e vice-versa:

· Caminhada da Família

· Marcha para Jesus

· Grito dos Excluídos

· Desfile Cívico-Militar

· Ato Pró-Bolsonaro



CAMINHADA DA FAMÍLIA

Os fiéis a Pedro – o santo, não o português – foram os primeiros a tomarem as ruas centrais de Marília pela Caminhada da Família, na manhã de 13 de agosto, sábado de abertura da Semana da Família promovida pela Igreja Católica.

Conduzidos pelo outrora intitulado Príncipe da Igreja – hoje restrito aos cardeais –, o bispo diocesano de Marília, Luiz Antonio Cipolini, cerca de 600 súditos de Roma, segundo a estimativa eclesial, seguiram em procissão pela São Luiz.

Entre cantos e orações, os católicos protagonizaram o único dos eventos citados neste post, em que as manifestações ficaram restritas ao próprio reino – a religião, a saber – ainda que tenha sido acompanhado por políticos e candidatos.

MARCHA PARA JESUS

Ao terceiro sábado após a passagem dos católicos, ressurgiu na cidade a 'Marcha Pra Jesus'. Anunciada pelo Podcast ‘Tô Salvo’, atraiu centenas de evangélicos – o número oficial não foi divulgado pela organização.

Do largo da Praça São Bento, a ‘Marcha’ seguiu pelas ruas do centro, animada por um trio elétrico. Ao passar pela São Luiz, no cruzamento com a Prudente de Morais, houve uma parada marcada pelo posicionamento contra o aborto e a ideologia de gênero.

A ‘Marcha’ foi encerrada com show de André Valadão. Apoiador da reeleição do presidente Jair Bolsonaro (PL), o pastor não deixou o palco sem antes evocar seu recado eleitoral. “Tem que saber em quem vai votar! Misericórdia!”.

Evangélicos, militares e toda corte do agronegócio sustentam a ideologia conservadora do imperador vigente, em estreita e subserviente relação de poderes tal qual outrora ocupara a Igreja Católica, do Descobrimento do Brasil, em 1500, à Proclamação da República, em 1889.



GRITO DOS EXCLUÍDOS

Enquanto as igrejas cristãs disputam suas quintas de soberania, o povo de Deus ou sem fé e esperança segue à beirada da História, exposto a toda sorte das periferias sociais e da dignidade humana no Brasil.

Excluídos e religiosos compuseram a mesma imagem da independência da indiferença no 'Grito da Maria Izabel'

Por isso a necessidade do ‘Grito dos Excluídos’, proclamado às margens da nova fonte da praça Maria Isabel – cuja homenagem é antes à esposa de um dos fundadores da cidade, Bento de Abreu Sampaio Vidal (1872-1948) que à famosa Marquesa de Santos.

As águas testemunharam um fato histórico de independência em Marília em pleno Sete de Setembro: lado a lado, padres, mórmons, evangélicos, espíritas e representantes de religiões de matiz oriental e africana, em diferentes expressões de fé, mas na mesma obra social.

A raríssima ação ecumênica na cidade foi coordenada pelas Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) da Igreja Católica, tradicionalmente ocupada por quadros de partidos de esquerda, presentes no local.



DESFILE CÍVICO-MILITAR

Enquanto se repartia o pão no Largo da Catedral Menor de São Bento, a movimentação frenética de veículos e pessoas rumo à principal avenida da cidade prenunciava o desfile cívico-militar que ocorreria na manhã do feriado da Independência.

Como de costume, o público marcou presença ao longo das seis quadras da Sampaio Vidal, por onde passaram, em cortejo, pessoas, entidades, veículos e o que restou das liras musicais da terra de Cristo Rei.

Sobre o palanque, à frente de seu próprio Paço, o prefeito municipal, Daniel Alonso (PSDB), acompanhou todo protocolo, inclusive o de se retirar antes que sindicalistas do serviço público aparecessem, por conta própria, por detrás das forças policiais.


ATO PRÓ-BOLSONARO

A essa altura, já se observava por ali a concentração inicial de dezenas, e depois centenas de súditos de Jair Bolsonaro. Vestidos a caráter para o evento cívico, ocuparam rapidamente a Praça ‘Saturnino de Brito’.

Justamente ali, cujo homenageado integrou as fileiras do estado de São Paulo na Revolução Constitucionalista de 1932, em oposição do governo federal, ocupada dois anos por um ato inconstitucional protagonizado por Getúlio Vargas (1882-1954).

Ao lado da praça, um vendedor lucrava com seus artigos com a imagem imaculada do Presidente da República, saudado aos gritos de ‘mito’ enquanto se entoava o Hino da Independência do Brasil.

Uma longa carreata ainda passaria por ali, tal qual uma procissão de devotos governistas, crentes no Messias que ora comanda a República. Acima de todos, só Deus sabe o futuro da nação que idolatra seus políticos.


Colaborou na revisão histórica o jornalista Fernando Andrade, do Conexão Marília

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