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JUBILEU DA PARTIDA

Fim do transporte de passageiros de longo percurso completa 25 anos nos trilhos paulistas. Retomada de serviço por vias da terceirização acende luz no fim do túnel para retorno de trens à estação de Marília


Passageiros na rabeira no último trem de Campinas para o interior | Gustavo Magnusson/Correio Popular
Passageiros na rabeira no último trem de Campinas para o interior | Gustavo Magnusson/Correio Popular

“É fim de tarde na estação ferroviária de Bauru. Da curva sob o viaduto da rua Azarias Leite surge, ao longe, a esforçada locomotiva diesel-elétrica G-12 à frente de dois carros de passageiros ainda batizados de ‘Expresso Estrela d’Oeste’ (1996) – que não teria trafegado mais do que 20 vezes...”

 

O relato é o ponto de partida da matéria de abertura do ‘Especial Ferrovias – Por Nossos Trilhos’, que seria publicado entre os dias 16 e 23 de março de 2013 no extinto Jornal BOM DIA de Bauru. As reportagens e edição são do editor deste blog.

Naquele ano, a matéria sobre trens de passageiros na outrora cidade listada entre os maiores entroncamentos ferroviários da América Latina já era artigo do passado. Eram 12 anos daquela viagem, em 2001. Neste sábado (14), a derradeira partida completou seu jubileu de prata.
Especial Ferrovias foi publicado no extinto BOM DIA Bauru entre os dias 16 e 23 de março de 2013
Especial Ferrovias foi publicado no extinto BOM DIA Bauru entre os dias 16 e 23 de março de 2013

Após 25 anos, revisitamos a história da chegada do comboio que marcou a despedida dos trens de passageiros para o interior paulista, passamos por décadas de abandono e desembarcamos na retomada do serviço – inclusive, rumo a Marília.

 

ÚLTIMA VIAGEM

Há décadas sem o compromisso de ajustar o relógio – e a rotina – por onde passou, o último comboio, já sobre trilhos concedidos à extinta Ferrovias Bandeirantes (Ferroban), partiu da centenária estação de Campinas às 9h15.

Apenas 57 testemunhas embarcaram no trem. Entre elas, o então prefeito de Campinas, Antonio da Costa Santos, o ‘Toninho do PT’, menos de seis meses antes de ser assassinado a tiros, aos 49 anos.

A viagem foi acompanhada por poucos veículos de imprensa da época e registrada principalmente por ‘fãrroviários’, que registraram os bastidores, a exemplo de Vanderlei Antonio Zago (assista abaixo).



O ‘Correio Popular’, de Campinas, registrou a despedida do trem de passageiros “129 anos depois”. A edição de 15 de março de 2001 traz, na capa, o maquinista José Ângelo Massoca, pouco antes de partir.


Último trem de passageiros foi matéria de capa da edição impressa do Correio Popular em 15.03.2001
Último trem de passageiros foi matéria de capa da edição impressa do Correio Popular em 15.03.2001

Doze anos depois, já aposentado desde 2007, o condutor do trem histórico ainda lamentava a interrupção do serviço. “Era diferente transportar passageiros. Sentimos bastante depois que tudo ficou vazio”, afirmou ao BOM DIA Bauru.

 

COMBOIOS POR AQUI

Em Marília, os trens de passageiros já passavam duas vezes por semana, até serem extintos, naquele março de 2001, interrompendo um transporte que antecedeu o nascimento da própria cidade.

Quando chegou pela primeira vez, em 30 de dezembro de 1928, o trem encontrou o distrito que havia sido emancipado a município havia seis dias, nomeado Marília pelo deputado estadual Bento de Abreu Sampaio Vidal.
Trem já trafegava em Marília em 1928, antes da emancipação da cidade | Foto: Acervo histórico
Trem já trafegava em Marília em 1928, antes da emancipação da cidade | Foto: Acervo histórico

Na época, o serviço foi inicialmente prestado pela Companhia Paulista de Estradas de Ferro (1872-1971), seguido pela Ferrovia Paulista S/A (Fepasa | 1971-1998) e, por fim, pela Ferroban, por obrigação contratual, até 2001.

Ou seja, os trens de passageiros trafegaram pela história de Marília por quase 72 de seus 97 anos de história, completados oficialmente em 24 de dezembro de 2025 e a serem comemorados em 4 de abril de 2026.
Os trens tracionados por 'Maria Fumaça' transportaram passageiros até o fim dos anos 1950 | Foto: acervo
Os trens tracionados por 'Maria Fumaça' transportaram passageiros até o fim dos anos 1950 | Foto: acervo
Casal se despede observado por funcionários da Fepasa nos anos 1990, na estação de Marília
Casal se despede observado por funcionários da Fepasa nos anos 1990, na estação de Marília

A passagem de trens por Marília ficaria restrita aos cargueiros da Ferroban, que ainda em 2001 passaria a ser controlada pela América Latina Logística (ALL), que transportaria a última carga pelos trilhos de Marília em janeiro de 2009.



Desde então, a cidade que conheceu antes seus passageiros ferroviários e depois os primeiros marilienses ficou à beira da linha dos investimentos ferroviários, apesar da incorporação da ALL pela Rumo Logística, em 2014.

A retomada – da recuperação da ferrovia e, quiçá, dos trens – foi iniciada em 2024, em cumprimento a compromissos firmados pela concessionária pela renovação contratual antecipada. Os serviços devem ser concluídos até 2028.


 

RUMO A MARÍLIA?

Reivindicado nas últimas décadas por associações e sindicatos ferroviários, o retorno dos trens de passageiros para o interior paulista voltou a entrar na linha de políticas públicas do governo paulista, por vias de terceirização.



A antiga gare de Campinas – atual Estação Cultura – de onde partiu o último comboio, em 2001, pode ser o ponto de chegada da retomada do serviço por meio da interligação metropolitana com São Paulo pela TIC Trens.

“O certo é que em 2029 já teremos em operação o trem Intermetropolitano, entre Jundiaí e Campinas, e em 2031, o trem expresso, entre Campinas e a capital”, afirmou o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), ao Correio Popular.

O trem expresso será o primeiro Trem Intercidades (TIC), de média velocidade – até 140 km/h – a ser implantado no Brasil. O próximo é o TIC Eixo Oeste, interligando São Paulo a Sorocaba, com leilão previsto para 2026.



O início da operação está previsto para 2033. De Sorocaba, devem partir outros trens para o interior. Dois já estão em estudos, segundo a Companhia Paulista de Trens Metropolitanos, com paradas finais em Franca e Marília.

“O material foi elaborado para que as regiões sejam enquadradas como áreas de potencial relevância para a elaboração de estudos de viabilidade de projetos de transporte. Por estarem em fase de estudo, ainda não há confirmação de possíveis estações, investimentos ou prazos”, informou o jornal ‘Cruzeiro do Sul’, de Sorocaba.
Luz no fim do túnel: CPTM já estuda futura implantação de trem de passageiros até Marília
Luz no fim do túnel: CPTM já estuda futura implantação de trem de passageiros até Marília

O TIC que voltaria a interligar Marília a São Paulo por ferrovia ocuparia duas bitolas – distância entre trilhos – pela configuração atual. A estreita (um metro) até Bauru e, de lá, pela larga (1,60 metro) até a estação local.

Neste caso, os passageiros fariam a baldeação de um trem para outro, como nos tempos de Paulista e Estrada de Ferro Sorocabana (1875-1971) e, depois, Fepasa e Rede Ferroviária Federal (1957-2007).

A centenária estação de Bauru, recém-adquirida pela Prefeitura, voltaria a reviver a efervescência ferroviária perdida. A Cidade Sem Limites já estuda a implantação de Veículo Leve sobre Trilhos (VLT) para não deixar os passageiros ferroviários apenas na saudade.



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