MAMÃE MARILIA
- Rodrigo Viudes
- há 18 horas
- 4 min de leitura
Conheça a matriarca nonagenária que embalou gerações e gerou uma cidade de filhos, nativos e adotados. Família dominada por Marias cresce e envelhece mais escolarizada, unipessoal, urbana e menos católica

O domingo do Dia das Mães foi de reencontros para muitos dos membros da família de dona Marília. Aos 97 anos, ela se viu rodeada novamente por filhos, netos e bisnetos, entre gerados e adotados em sua casa.
O clã é dominado por mulheres, não para de se multiplicar há décadas, está mais urbano e escolarizado, mas os familiares andam cada vez mais distantes, isolados em suas moradias e comunidades de fé.
É bem provável que você, caro(a) leitor(a) se reconheça entre os parentes desta senhora quase centenária pelos laços familiares apresentados neste texto. Sinta-se à vontade para sentar-se no sofá desta leitura.

GRANDE FAMÍLIA
Dona Marília é a matriarca de uma casa de mulheres. As suas filhas, netas e bisnetas já somavam mais de 123 mil. Os homens não eram mais do que 113 mil, alargando seu parentesco para mais de 236 mil.

A multiplicação está na genética desta grande família. Em 1970, já somava 98,1 mil pessoas, entre conterrâneos e agregados. A mesa já havia dobrado de tamanho para acolher os 197,3 mil, no início dos anos 2000.
Apesar da quantidade de gente de maioria branca entre alguns pretos e muitos pardos, a casa de dona Marília já esteve mais cheia de crianças. Há pouco mais de 42 mil ante os 44 mil “60+” contados entre os avós.
MARIAS E JOSÉS
A maioria feminina também se chama pelo nome. As Marias eram pelo menos 11.537 mulheres entre os parentes de dona Marília – que, por sua vez, não tinha mais do que 280 xarás com idade média de 42 anos.

As Anas (4.937) são o segundo nome mais comum, mas os Josés (4.810) puxam a fila dos homens mais chamados de João (4.136), Antonio (2.118), Pedro (2.058), Lucas (2.029), Gabriel (1.990), Paulo (1.805) e Luís (1.777).
Dona Marília é da Silva, assim como 30,7 mil. Entre os seus, ainda se juntaram os Santos (21,1 mil), Oliveiras (14,2 mil), Souzas (12,3 mil), Pereiras (8,3 mil), Rodrigues e Alves (6,4 mil), Ferreiras (6,1 mil) e os Limas (5,2 mil).

ESTUDOS DE CASO
Nem todos os membros da família de dona Marília conseguem escrever o próprio nome. Pelo menos cinco mil são chamados de analfabetos. Na maioria, mulheres pretas com mais de 80 anos e moradoras em favelas.
Mais de 39 mil parentes da matriarca não concluíram sequer o Ensino Fundamental. Outros 28 mil não passaram do Ensino Médio. Mais de 75 mil viram o sonho do canudo da faculdade adiado no meio do caminho.

Ainda assim, a bisavó tem alguns doutores para contar entre os seus. São 15,8 mil formados em Direito, Administração e outras áreas de negócios, 8,1 mil em Saúde e Bem-Estar. Ainda há 5,1 mil professores nesta minoria de bacharéis.
MULTIDÃO DE SOLITÁRIOS
As reuniões de família em fins de semana e datas comemorativas têm sido cada vez mais difíceis para dona Marília. Ainda que 98,9% dos seus filhos residam na área urbana, as distâncias aumentaram entre eles.

Além do espalhamento da cidade, mais aparentado com os interesses imobiliários, os novos modelos de composição familiar estão isolando os parentes da matriarca em lares cada vez menores em número, gênero e grau.
Nesta ordem, pelo menos um a cada cinco de seus parentes mora sozinho. Em mais de 650 casas, os cônjuges são do mesmo sexo e em 22% dos lares não há alguém para se chamar de pai ou mãe.
PARENTESCOS DE FÉ
Até poucas décadas, dona Marília ainda reunia a família para ir à missa. Com o passar do tempo, os familiares passaram a frequentar outros cultos, dos cristãos aos das religiões de matriz africana.
A cada dez parentes da matriarca que dizem professar uma fé, cinco ainda se dizem católicos; três, evangélicos; um, espíritas, e os outros frequentam os terreiros de candomblé, umbanda e de outras religiosidades.

Mas na família da matriarca há ainda – e cada vez mais – aqueles que não acompanham dona Marília, nem qualquer outro familiar em rotinas de fé. São mais de 13 mil que se declaram sem vínculo com qualquer religião.
LONGEVIDADE
Ainda que se encontre em igrejas esvaziadas, dona Marília tem sido acompanhada por parentes que se encontram em sua mesma caminhada de vida: rumo ao centenário. Ou até além dos 100.
Ela não está sozinha entre os que se aproximam de um século de vida. Havia 162 mulheres e 51 homens na expectativa de assoprar três velinhas no bolo de aniversário. Pelo menos 32 já haviam superado essa marca de longevidade.
Nos momentos mais difíceis, dona Marília costuma se recordar de sua sala de estar por onde já passam e se perpetuam, em memórias emolduradas, as trajetórias daqueles que ela espera reencontrar um dia – e dia de mãe.



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