NA MÃO DOS CAMARINHAS
- Rodrigo Viudes
- há 2 horas
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ANÁLISE: Decisão judicial devolve a carta dos direitos políticos ao patriarca da família mais influente nos poderes públicos da história de Marília. Liberado para ‘jogar’ nas eleições de outubro, Abelardo ainda depende de aval da Justiça Eleitoral para confirmar candidatura pré-anunciada

No início da jogada eleitoral municipal de 2024, as pré-candidaturas à Prefeitura de Marília aguardaram pela vez do então deputado estadual, Vinicius Camarinha (PSDB), antes de lançarem suas cartas.
À mão das pesquisas de intenção de voto, Vinicius jogou: confirmou a pré-candidatura em março, desembaralhou a disputa, viu-se entre poucos adversários e deixou a mesa eleitoral de volta à chefia do Executivo de Marília.
Menos de dois anos depois, na abertura de nova temporada eleitoral, um velho jogador – na tranca e na política – volta a assentar a família Camarinha ao redor da disputa das próximas urnas de outubro.
De novo, José Abelardo Guimarães Camarinha (Podemos), após cumprir penalidade que o deixou fora do jogo por cinco anos, com direitos políticos cassados, aplicados em ação de improbidade administrativa.

JOGOS EM FAMÍLIA
Aos 73 anos, Abelardo é o patriarca político da família há quase cinco décadas. Estreou como vereador e continuou como prefeito (três vezes), deputado estadual (três) e deputado federal (duas). Conhece o baralho, as regras e os atalhos.
Os Camarinhas participam do jogo político em Marília desde 1969, início do primeiro dos dois mandatos consecutivos do ex-vereador Josué Camarinha (1924-2006), até ser sucedido pelo próprio Abelardo no mesmo Legislativo.
Ainda pelo Segundo Poder de Marília passaria Marcos Camarinha – sobrinho de Abelardo – por duas legislaturas consecutivas (2001 a 2008). Mas, foi na cadeira da prefeitura que a família passou a influenciar no jogo político da cidade.
Desde a primeira metade dos anos 1980, os Camarinhas somam 19 anos na chefia de Marília – 14 com Abelardo, mais longevo da história da cidade e cinco com Vinicius, podendo chegar a 22 ao final do mandato, em 2028.
PRÉ-CANDIDATURA NA MESA
Com a decisão da 5ª Vara Cível, assinada no último dia 8, a Justiça de Marília reconheceu que Abelardo pagou sua penalidade. Mas, como todo jogador experiente, ele sabe: voltar à mesa não é o mesmo que ganhar a rodada.
Na política, como na tranca, existe diferença entre estar apto a jogar e ter jogo válido para bater. A decisão cível apenas devolve as cartas. A validação do jogo só acontece mais adiante, caso a Justiça Eleitoral defira uma eventual candidatura.
Que, por experiência política, Abelardo já anunciou, conforme vídeo abaixo: quer disputar novamente para deputado estadual, último cargo político que permaneceu, até 2019, apesar de decisão do Tribunal Regional Eleitoral (TRE-SP).
Em 2016, ainda no segundo ano do mandato, Abelardo perdeu o diploma de deputado estadual por uso indevido dos meios de comunicação — uma canastra suja que resultou em outra inelegibilidade por oito anos, já cumprida.
FORA DO JOGO
A mão que barrou Abelardo da cena eleitoral recente vem de longe. Desde 2002, ele jogava sob protesto em uma ação civil pública por improbidade administrativa, aberta quando cumpria seu segundo mandato como prefeito de Marília.
A acusação: contratar servidores sem concurso público, fora das hipóteses legais. O Tribunal de Justiça (TJ-SP) entendeu que houve infração ao antigo artigo 11 da Lei de Improbidade — a carta dos “princípios”, hoje bastante desvalorizada no baralho jurídico.
O jogo percorreu várias mesas, passou por cortes, redistribuições e chegou ao Supremo Tribunal Federal (STF). O resultado foi uma canastra pesada: suspensão dos direitos políticos por cinco anos, multa e outras sanções.
Em 2020, quando tentou baixar o jogo na Prefeitura de Marília, a Justiça Eleitoral pediu mesa — e invalidou. Com os direitos políticos suspensos, ele sequer pôde votar. Ainda assim, permaneceu no tabuleiro e recebeu 35.006 votos – todos anulados em 2021.
URNAS EMBARALHADAS
Caso o registro de candidatura de Abelardo seja aceito, a mesa local muda completamente nas eleições de outubro. O blog apurou que a entrada dele inviabilizaria o jogo de nomes ligados ao governo municipal, como o do vice-prefeito Rogerinho (PP).
Nesse cenário, a lógica empurra o prefeito Vinicius a jogar em dupla com o pai: para enfrentar diretamente a deputada Dani Alonso (PL) — adversária direta no baralho estadual — e, ao mesmo tempo, afastá-lo da sombra de seu governo municipal.
Com Abelardo em jogo, o monte de votos de Marília se fragmenta. Em 2022, sete candidatos locais somaram mais de 75 mil votos. O velho Camarinha, sozinho, historicamente segura mais de 30 mil cartas eleitorais na mão.
Ou seja, seus prováveis futuros concorrentes ao legislativo paulista na cidade – Dani Alonso (PL), única em mandato, por exemplo – terão que disputar tanto os demais ‘votos caseiros’ quanto os destinados aos candidatos de fora de Marília – 48.199 (39% dos válidos).




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