O CUSTO DO RODEIO
Prefeitura de Marília paga R$ 2,2 milhões em shows de Gusttavo Lima e Maiara e Maraísa com mais de R$ 1,5 milhão remanejados da Saúde. Contrato firmado com organizadora prevê contratações artísticas que contrariam discurso de gratuidade do Governo Vinicius

Após dois anos e alguns dias, também às vésperas de mais uma eleição, a Prefeitura de Marília promoverá entre a próxima quinta-feira (17) e o sábado (19) mais uma edição do Marília Rodeo Music (MRM).
Anunciado como gratuito pelo próprio prefeito, Vinicius Camarinha (PSDB), o evento, que neste ano recebeu o codinome de ‘1º Agro Food Show’ terá rodeio, shows, parque de diversões, boate e praça de alimentação.
Do anúncio oficial da festa, com os discursos ufanistas de praxe, às publicações de contratações com inexigibilidade de licitação no Diário Oficial do Município de Marília (Domm) ficou claro quem, de fato, vai pagar a conta.
MUDA GOVERNO, MESMA ÁREA
O MRM será realizado em uma área pública municipal de 422,9 mil metros quadrados, localizada no distrito de Lácio, a cerca de 100 metros das obras no Ambulatório Médico de Especialidades (AME).

O espaço é o mesmo da Arena Multiuso criada por decreto pelo ex-prefeito Daniel Alonso (PL) a menos de uma semana da realização do evento, em agosto de 2024. Desde então, as áreas asfaltadas haviam sido invadidas pelo matagal.
Nesta quinta-feira (10), a instalação das estruturas metálicas já desenhava o retorno do evento no local. Homens trabalhavam nos encaixes das plataformas de uma das arquibancadas enquanto a cobertura da área comum descansava no pavimento.

Devido às chuvas dos últimos dias, o único acesso até o MRM, em estrada de chão, estava intransitável, exceto para tratores e caminhões. Há previsão de chuvas para Marília até a próxima terça-feira (15), antevéspera da abertura do evento.

LUCRO EXCLUSIVO
A instalação do MRM é de responsabilidade de uma empresa de Sud Mennucci (SP) que venceu a licitação de permissão de uso da área para “organização, realização, administração, operacionalização e exploração econômica”.

Pelo pagamento de R$ 33 mil, a Cleber Gonçalves de Oliveira Serviços Ltda poderá explorar economicamente as seguintes áreas e atividades do evento, segundo contrato firmado com a Prefeitura de Marília:
Áreas VIP
Camarotes
Estacionamento
Espaços publicitários
Parque de diversões
Patrocínios
Praça de alimentação
Ou seja, ainda que pesem as despesas, a empresa terá o lucro exclusivo. Como “contrapartida social”, também conforme o contrato, a organizadora deverá garantir acesso gratuito à população.
Nos últimos dias, a prefeitura promoveu troca de alimentos por ingressos para os shows. A população aderiu à arrecadação do Fundo Social de Marília sem saber, pelas vias oficiais, que o custo das apresentações já sairia do seu bolso.
SHOWS NA CONTA DA PREFEITURA
Entre as demais exigências, a organizadora ficou responsável pela contratação de apenas uma atração artística de “renome nacional, compatível com o perfil agroindustrial”, selecionada dentre as opções pré-definidas pelo contrato.
Da lista com Cezar Menotti & Fabiano, Zezé Di Camargo & Luciano e Leonardo, entre outros, cujos cachês variam de R$ 400 mil a R$ 650 mil no país, a empresa escolheu o cantor Panda, cujas contratações em 2026 foram de R$ 350 mil a R$ 500 mil.
O artista foi o primeiro anunciado na rede social oficial do evento, em 10 de agosto. Quatro dias depois, a apresentação de Maiara & Maraísa foi confirmada, seguida pela de Gusttavo Lima, no dia 17.

Ambos os shows, que não constavam na lista recomendada à organizadora, foram contratados pela Prefeitura de Marília, sem exigência de licitação, conforme os termos de autorização publicados no dia 5 de setembro no Diário Oficial.


CONTRATOS PUBLICADOS
Os extratos dos contratos foram publicados nesta sexta-feira (11). A Show Completo Produções Artísticas Ltda, que representa a dupla Maiara & Maraísa, receberá R$ 754 mil e a Balada Eventos e Produções Ltda, vinculada a Gusttavo Lima, R$ 1,5 milhão.
Os pagamentos contrariam a informação oficial da Prefeitura de Marília de que o “Agro Food Show não terá custo para o município”. “Fizemos licitação e o vencedor vai oferecer toda a estrutura e os shows”, afirmou Vinicius.
Apesar da publicação dos contratos, a administração municipal – e o próprio prefeito – têm se omitido em declarar que o custo de R$ 2,2 milhões de contratação das principais atrações do MRM saiu dos cofres públicos do município.
A previsibilidade da contratação direta dos shows pela administração pública “por conveniência e oportunidade” já constava no vínculo firmado com a organizadora no dia 4 de agosto, conforme segue abaixo:

DE ONDE SAIU O DINHEIRO
Os contratos da prefeitura com as empresas que representam Maiara & Maraísa e Gusttavo Lima não foram firmados pela Secretaria de Cultura, mas pela de Trabalho, Turismo e Desenvolvimento Econômico.
A pasta recebeu o exato valor dos shows – R$ 2.254.000,00 – entre outros remanejamentos de recursos do orçamento vigente por meio de um decreto de Vinicius publicado em 21 de agosto no Diário Oficial.
Do dinheiro reservado para o pagamento dos shows, o maior volume, R$ 1.530.000,00, saiu da Secretaria da Saúde. Confira abaixo a quantia e a destinação que cada recurso poderia ter se tivesse sido mantido na pasta:
R$ 1 milhão da atenção básica à população
R$ 300 mil de serviços de alta e média complexidade
R$ 200 mil para contratação de serviços
R$ 30 mil de obras e instalações

A Secretaria de Planejamento Urbano (SPU) ‘contribuiu’ com mais R$ 500 mil que seriam aplicados em ações de ordenamento territorial; a Educação, com R$ 170 mil, referentes à compra de material para distribuição aos alunos.
E a Cultura, listada entre as secretarias como menor disponibilidade de recursos no Orçamento-2026, teve que ceder R$ 19 mil a serem investidos em “premiações culturais, artísticas, científicas, desportivas e outras”.
Procurada pelo blog na manhã desta quinta-feira (10) a Prefeitura de Marília ainda não havia respondido de onde havia remanejado os recursos para o pagamento dos shows. Caso se manifeste, este texto será atualizado.



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