UMA PREFEITURA E SEUS DOIS PREFEITOS
- Rodrigo Viudes
- 13 de jul.
- 4 min de leitura
ANÁLISE: Volta de ex-secretário de Daniel à Secretaria de Finanças de Vinicius aproxima duas gestões adversárias na política e semelhantes na condução administrativa. Endividamento da cidade supera 1.000% desde 2014. Entre críticas e reconduções, política municipal segue roteiro de continuísmo no governo de Marília

O bancário aposentado, Ramiro Bonfietti, voltou ao expediente da Prefeitura de Marília nesta segunda-feira (13) como secretário-adjunto de Finanças e Planejamento Econômico do prefeito Vinicius Camarinha (PSDB).
A nomeação devolve ao núcleo da administração um dos principais responsáveis pela condução da política econômica do governo Daniel Alonso (PL), justamente a gestão que o atual prefeito responsabilizou durante a campanha e nos primeiros meses de mandato pela crise financeira do município.
Muito além da nomeação de um adjunto – na prática, um ‘vice-secretário’ – a volta de Bonfietti à gestão municipal conecta duas administrações adversárias nas urnas, mas com discursos semelhantes sobre a herança financeira.

Ou seja, um continuísmo de performance política que persiste em Marília desde 2013 envolvendo Vinicius e Daniel, e vice-versa. Uma prefeitura. Dois prefeitos. E uma cidade no meio de ambos.
SECRETÁRIOS DE GOVERNOS
A recondução de nomes na política econômica municipal não é novidade nos governos de Vinicius e Daniel. Em 2012, o atual prefeito nomeou Levi Gomes de Oliveira para a cadeira da Secretaria da Fazenda.
O economista e advogado permaneceria apenas 19 dias no cargo, mas quatro anos depois, seria nomeado por Daniel, em cujo governo reeleito permaneceria até novembro de 2024, quase um mês antes da nomeação de Ramiro para a Fazenda.

Antes, ainda no governo Daniel, o novo adjunto de Vinicius já havia exercido o cargo atual entre julho e dezembro de 2019, assumido o Planejamento Econômico, até 2020; a Administração, até dezembro daquele ano; e voltado para a Fazenda em 2022.
CENÁRIOS SEMELHANTES
Ramiro reaparece na secretaria das contas de Marília, ainda que na condição de um secretário adjunto, em um cenário recorrente e desfavorável de liquidez de curto prazo e de endividamento da cidade.

Julho começou com escalonamento do pagamento dos salários dos servidores da ativa – entre eles, os comissionados do primeiro escalão –, com possibilidade de novos atrasos nos próximos meses, dado o histórico de queda na arrecadação.
No meio político, o retorno de Ramiro à Prefeitura foi interpretado como uma sinalização pública de rendição de Vinicius à busca por uma solução técnica no governo Daniel para resolver os problemas financeiros em sua própria gestão.
O blog apurou que, mesmo entre aliados, a avaliação é que a volta de Ramiro ao primeiro escalão, ainda que elogiado por sua capacidade técnica, expõe Vinicius a mais uma contradição entre discurso e prática – vide o caso da intervenção na concessão da RIC Ambiental [leia aqui].

NARRATIVAS COMUNS
Conhecido por sua atuação discreta, o novo secretário-adjunto de Vinicius integrou o núcleo decisório da gestão econômica de Daniel Alonso, cujas ações foram duramente criticadas por Vinicius na campanha eleitoral e no próprio governo.
Ao assumir, o prefeito afirmou ter encontrado a Prefeitura de Marília “em um caos financeiro”, e acusou o antecessor de ter deixado “um rombo” nas contas públicas do município, quase inviabilizando a gestão no início do mandato.
Em 2017, quando assumiu o governo de Vinícius, Daniel havia seguido o mesmo roteiro narrativo. Ele avaliou como “lastimável” o cenário administrativo da cidade e os “milhões em dívidas” do então antecessor.
ENDIVIDAMENTO BILIONÁRIO
Sob as administrações de Daniel e Vinicius, Marília sofreu um escalonamento vertiginoso do endividamento nunca registrado em sua história. É o que confirmam os dados oficiais do próprio município e do Tesouro Nacional.
A aferição mais antiga disponível da União é de dezembro de 2014 – percorrida a metade do primeiro governo de Vinicius. Na época, a dívida da cidade era de R$ 166,1 milhões, dos quais R$ 94 milhões eram de precatórios – então ‘vilão’ das contas municipais.

Segundo a mesma fonte, ao encerrar seu mandato, dois anos depois, Vinicius teria entregado a gestão da cidade para Daniel com endividamento ligeiramente menor, de R$ 162,2 milhões mas sem a contabilidade de R$ 153 milhões de dívida flutuante.
O valor, admitido pela gestão Vinicius em audiência pública, apareceria no relatório de endividamento de dezembro de 2017 da União – no fim do primeiro ano do governo Daniel. Àquela altura, o passivo da cidade já havia chegado aos R$ 438,5 milhões.

Passados oito anos do governo reeleito de Daniel, o endividamento da Prefeitura de Marília subiu para R$ 979 milhões, mas o valor seria atualizado em fevereiro de 2025, segundo mês do governo Vinicius, para R$ 1,7 bilhão, somado o rombo previdenciário.
O passivo da cidade continuou a crescer na atual gestão. Segundo a última atualização, de fevereiro deste ano, a conta já havia chegado aos R$ 2,1 bilhões. No caso, mais R$ 377,9 milhões gerados em um governo que nem chegou à metade de seu mandato.




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